Identidade Católica 1 – A defesa da Identidade Católica


piox

Eu fico feliz em ver a quantidade de apostolados católicos, de matiz mais conservadora, que têm surgido ultimamente, especialmente na internet (blogs e fanpages no Facebook). É somente em vista dessa realidade que foi possível reunir a Liga dos Blogueiros Católicos. Mas esse despontar de apostolados católicos também serviu para pôr em evidência as divergências que naturalmente acontecem quando se trata de grupos de matiz conservadora. Para efeito deste artigo incluo grosseiramente os tradicionalistas e os neocons no grupo dos conservadores.

O conservadorismo implica uma prontidão, que às vezes parece até exagerada, de defender firmemente o que é certo contra o que é errado. É típico da mentalidade conservadora se preocupar com o que é correto, mais do que com o que é agradável. O conservador é aquele que deve defender o que é certo contra o que é fácil e cômodo. Este tipo de atitude, que parece exagerada e ultrapassada nos dias de hoje, é necessária como um mecanismo de defesa: é comum que o erro se insinue como uma aparentemente inocente tentativa de apaziguar conflitos entre idéias e atitudes que seriam igualmente legítimas. O conservador defende que é necessário sustentar o lado mais correto, mesmo pagando o preço do conflito e de rejeitar uma idéia que às vezes nem é danosa em si, mas que pode dar margem a outras idéias e atitudes danosas no futuro.

Com isso é comum que os conservadores estejam em conflito não só com os progressistas, mas também entre eles mesmos. Eu sou daqueles que defende que, apesar de estes conflitos serem inevitáveis, por serem parte da essência do conservadorismo, os conservadores devem se esforçar continuamente em não deixar que eles atrapalhem a ação conjunta e coordenada que eles devem empreender na atual guerra cultural contra os inimigos de Deus e da Igreja.  E o único modo de não deixar que os conflitos entre os conservadores não atrapalhe esta ação conjunta e coordenada é ordenar esta ação em torno do conceito de Identidade Católica.

Minhas definições favoritas de identidade católica, isto é, do que é ser um católico de verdade, daquilo que é verdadeiramente essencial para alguém poder se chamar católico são, primeiro, a definição do Catecismo de São Pio X: “Verdadeiro Cristão é aquele que é batizado, crê e professa a doutrina cristã e obedece aos legítimos pastores da Igreja”; segundo, a definição baseada nos três “C’s”: o católico é aquele que busca preservar o Credo, o Código e o Culto. Pretendo me aprofundar análise destas definições a as razões da minha preferência em outro artigo. Por agora, basta observar que, se conseguirmos dar mais importância ao que vai nestas definições, e dar menos importância ao que não está nelas, conseguiremos liberdade o suficiente para coordenarmos as diversas convicções dos conservadores. E por quer deveríamos fazer este esforço? Há duas razões principais.

A primeira é que uma opinião ganha força pela quantidade de pessoas que a divulga e pela homogeneidade destes testemunhos. Não estou dizendo aqui que a quantidade seja critério de veracidade. A veracidade da opinião deve ser apurada de outro modo. Mas é fato que quanto mais pessoas difundirem determinada opinião, mais conhecida ela será. Não adianta apenas estarmos certos. Nossas opiniões têm que ser conhecidas.

A segunda razão é que, pelo fato de as divergências fazerem parte da natureza dos grupos conservadores, buscar se concentrar em questões mais centrais e fundamentais, como o que significa de verdade ser cristão, é uma boa estratégia para fazer surgir pistas para a futura solução destas divergências. É ridículo dizer, como os “católicos” delicadinhos de hoje em dia vivem dizendo, que devemos simplesmente esquecer as divergências. Não devemos, não! Até porque as razões pelas quais os conservadores divergem são coisas importantes, que não podem simplesmente ser jogadas para debaixo do tapete. O que devemos fazer é adiar a solução definitiva destas divergências (elas terão que ser resolvidas algum dia, não restam dúvidas) para um momento em que estivermos recebendo relativamente poucos ataques dos inimigos da Igreja. Além disso, focar no essencial, de ajudar a expôr quem são os verdadeiros inimigos em quem todos devem concentrar os ataques nos momentos mais críticos (como os pronunciamentos complicados do Papa Francisco, que acabam sendo distorcidos antes que a maioria dos católicos tomem conhecimento deles).

Devemos dar cada vez mais atenção a esta questão. Se eu pelo menos conseguir convencer os católicos que eu conheço da importância desta mudança de foco poderei considerar que dei a minha contribuição pessoal à defesa da fé.

Anúncios

Captare recomenda: blog do Angueth

Como vocês devem ter reparado, há poucos links ali na barra Recomendo. Isto acontece porque todos os links que estão ali estão recomendados por uma razão, que é concernente às coisas que eu defendo e que é explicada em postagens como esta, que eu faço no momento que adiciono o link na barra. Há poucos não só porque há poucas coisas que eu realmente recomende na internet hoje em dia, mas porque considero necessário dizer por que, afinal de contas, eu recomendo este ou aquele site.

Com este meu novo ímpeto de dinamizar o site, vou tentar preencher logo esta barra com todos os sites que tenho em mente, pois para isso não é necessária nenhuma pesquisa mais aprofundada.

Hoje estou aqui para recomendar um blog excelente para aqueles que estão interessados numa cultura e num pensamento verdadeiramente cristãos. Melhor ainda se estas coisas forem ilustradas freqüentemente por textos destes que eu considero os maiores pensadores que existiram no Séc. XX, e que – ironia das ironias! – infelizmente são tão pouco conhecidos pelos católicos e/ou brasileiros de hoje em dia: G. K. Chesterton e Hilaire Belloc. E é justamente isto que vocês vão encontrar no blog do Angueth.

Antônio Emílio Angueth de Araújo é um professor de Belo Horizonte – MG, tradicionalista e fã dos pensadores acima mencionados. Sua principal contribuição para a blogosfera católica – e para a conservadora também! – vem na forma das traduções que ele faz dos textos de Chesterton e Belloc, tendo inclusive traduzido alguns livros inteiros como “As Grandes Heresias” do Belloc. Mas ele também responde perguntas de seus leitores e faz comentários de notícias atuais de modo fiel à Tradição. Portanto é também um ótimo exemplo de qual deve ser a postura de um verdadeiro católico.

Para vocês terem uma noção do que estou falando, e para conferirem um pouco da genialidade do G. K. Chesterton, recomendo o texto “Será o Humanismo uma religião?”, que demonstra como o humanismo secular não é nada em comparação com o “super-humanismo” da Religião. E para que vocês possam conferir um pouco da genialidade de Mr Belloc, recomendo o começo da tradução de um outro livro seu: “O Estado Servil”, que trata de um sistema econômico baseado em verdadeiros valores cristãos e alternativo tanto ao capitalismo quanto ao socialismo. E como um exemplo de ortodoxia cristã, recomendo o texto “Nossa participação na Vida Divina”, que traz um excerto do Compêndio de Teologia ascética e Mística, do padre Tanquerey, livro que eu chamo de “Manual de Instruções do Ser Humano”.

Dito isto, boa leitura!

Esclarecimentos sobre mim e sobre o tradicionalismo

O leitor Leandro postou dois comentários (primeiro e segundo) no post em que eu recomendei o blog In Prælio. Suas considerações e dúvidas são pertinentes, pois me permitem esclarecer alguns pontos que considero importantes sobre Concílio Vaticano II, tradicionalismo e sites de apologética. Como ele colocou muitas observações, estas seguem em azul e abaixo de cada citação vai a minha resposta.

Visitei o In Praelio por sua indicação e achei quase excelente o site, com a ressalva de que seu editor “tem sua interpretação pessoal” sobre o CVII, logo sua comunhão com a Igreja é apenas parcial.

Olha, Leandro, é difícil falar em “interpretação pessoal sobre o CVII” porque aí já estamos entrando no campo do que cada um conhece ou desconhece sobre o Concílio. E neste campo há sempre o risco de se fazer uma afirmação precipitada sobre o que uma pessoa sabe ou não sabe.

O que eu posso dizer é que, como eu já mencionei por alto em outro artigo, normalmente quando alguém fala que “fulano tem apenas uma interpretação particular do CVII” é devido a certo preconceito disseminado contra os tradicionalistas, principalmente pelo Veritatis na “era Alessandro Lima”. Sei que esse não é o seu caso, mas isso é mais comum e mais grave do que parece.

Mas há com certeza um erro em dizer que os críticos ao Concílio Vaticano II estão em “comunhão parcial com a Igreja”, pois a Igreja é muito maior que o CVII. O único grupo tradicionalista que não estava em comunhão com  Roma, e mesmo assim devido a outro motivo que não o CVII era a FSSPX, mas isso já foi resolvido pelo Papa.

Apesar de você ter afirmado que ele é tradicionalista (também o sou, e não vejo discrepância irreconciliável entre ser tradicionalista e seguir a Igreja) seria mais objetivo se você afirmasse claramente em seu post acima “o In Praelio não comunga do CVII” do que deixar cada leitor descobrir de maneira individual; poupando-nos assim de eventual perda de tempo ou decepção.

Tradicionalista é uma classificação bem objetiva, apesar de que seu significado atual é bem específico. Como você verá adiante não basta defender a Tradição bimilenar da Igreja – eu também o faço! – para ser tradicionalista. Hoje é preciso algo mais. Para aqueles que defendem a Tradição, mas não consideram o CVII mau em si cabe melhor o nome de conservadores.

Como complemento, sugiro aos leitores do Battle Site a leitura de: http://blog.veritatis.com.br/index.php/2009/12/09/diversos-grupos-e-solucoes-diante-da-crise-liturgica/ (sem preconceitos, se possível, já que eu percebi em http://praelio.blogspot.com/2009/08/vitola-e-suas-contradicoes.html que o Jefferson do In Praelio não gosta muito do Rafael Vitola do Veritatis).

Como eu já tinha indicado no meu comentário, a classificação feita pelo Rafael Vitola não é tão abrangente, pois seu artigo fala apenas de crise litúrgica. Eu não sei se o Rafael Vitola pensa que a crise é apenas litúrgica, ou se ele apenas quis dar ênfase a um aspecto particular da crise, mas o esquema que engloba os tradicionalistas é baseado em mais coisas que simplesmente a liturgia.

Quanto ao segundo artigo, não sei se o Jefferson nutre algum sentimento, positivo ou negativo, quanto à pessoa do Rafael Vitola, mas eu sei que durante uma época, o Rafael se envolveu em polêmicas com o pessoal da Montfort, estas sim, bastante despropositadas (as que aconteceram entre o Alessandro Lima e o Prof. Fedeli eu não considero que tenham sido despropositadas). E nesta época, muita gente foi levada a atacar o Rafael Vitola no arraste dos ataques da Montfort. Então, é fato que muita gente não gosta do Rafael, mas têm uns que tem lá seus motivos, e têm outros que só tem os motivos da Montfort.

Existe um velho dito popular (não me lembro muito bem se é assim) que dizia “podemos ser contra qualquer lei, e lutar para mudá-la. Enquanto não tivermos sucesso, não temos o direito de desobedecê-la.” Acredito que se encaixa bem neste caso.

Não encaixa porque o Vaticano II não promulgou nenhuma lei. Há muitas orientações, mas nada com força de lei. Ninguém pode decidir questioná-lo de acordo com sua própria cabeça, mas aqueles que têm bons motivos para fazê-lo também não podem ser chamados de cismáticos ou rebeldes.

Citei sobre minha cidadezinha apenas para colocar uma referência para você e demais leitores que eu nunca conheci ninguém destes “entendidos” pessoalmente (Alessandro Lima, Rafael Vitola, Carlos Nabeto, +Dom Estêvão, Orlando Fedeli, Jefferson Nóbrega, Diogo Linhares, etc […]

Olha, eu fico lisonjeado e agradeço a bondade de  me considerar um entendido no assunto, mas eu mesmo não me considero tal. Creio que o Jefferson também. Sou apenas alguém que está estudando para compreender melhor tudo o que está acontecendo, e procuro ajudar outros que estejam dispostos a fazer o mesmo.

Já li argumentos “dos dois lados” sobre a validade ou não do CVII (é claro que não existem apenas “dois lados”), mas minha pouca experiência prática (afinal das contas, tenho 25 anos e nasci depois do CVII e do novo Missal) me diz que quem aceita o CVII como válido porém instrui seus amigos/leitores a se desvencilhar de abusos e interpretações forçadas parece mais coerente do que quem rejeita o CVII como um todo.

É coerente, sim. Mas é insuficiente. Os abusos e as interpretações forçadas não foram tiradas “da cartola”, não surgiram “por mágica” na mente dos modernistas. Pense do seguinte modo: um texto que é redigido com a preocupação de que não tenha mais de uma interpretação, corre um risco muito menor de que haja uma interpretação dúbia. Ora, essa preocupação não houve na redação dos textos do CVII, ou pelo menos não foi a principal. Então não basta alertar para os abusos e interpretações errôneas, deve ser feito um estudo franco de tudo o que possibilita estes abusos e interpretações.

Não julgo saber tudo, tem muita coisa que preciso aprender ainda, mas para mim acreditar diferente do que eu acredito neste assunto é ser um sedevacantista, pois João Paulo II e Bento XVI já confirmaram (o CVII) diversas vezes. Me perdoem se estiver errado.

Não se preocupe. Até porque essa visão errada de que “quem recusa o Vaticano II está ou beira o sedevacantismo” é outro erro da era Alessandro Lima, que inclusive foi o primeiro a colocar as coisas nestes termos. Isto foi também o início de uma discussão no finado Fórum do Veritatis, da qual eu participei e que foi responsável por eu ficar afastado dos debates católicos na Internet por muitos meses, devido ao desânimo que se abateu sobre mim.

Quanto a você, Captare, sinceramente não sei a sua posição neste assunto (acredito que seja “tradicionalista anti-CVII” por indicar o In Praelio, mas posso estar errado), e gostaria que me dissesse sua opinião a respeito ou indicasse um artigo anterior seu em que fale sobre isso.

Lamento dizer que você está errado. (hehehe) Não sou tradicionalista, muito menos anti-Vaticano II. Ao contrário daqueles, eu considero que houve pontos positivos no Vaticano II. Minha posição, entretanto,  se aproxima da do Jefferson, que foi exposta no comentário dele lá no outro artigo (a qual eu também fiquei conhecendo lá), com a diferença – talvez, não tenho certeza – destes pontos positivos.

O que proponho, diferente do artigo do Rafael Vitola, é que há na Igreja, assim como em qualquer sociedade, apenas três tipos de pessoas: os conservadores, os indiferentes e os progressistas. Tradicionalistas não podem ser situados no mesmo plano geral, sendo na verdade um forma mais radical (no bom sentido) de conservadorismo. Aqueles que ele chamou de reformistas, também não podem ser colocados no mesmo eixo, pois só existem em relação à Liturgia. E por fim, os ultramontanos não podem também estar no eixo geral porque ora podem estar de um lado, ora podem estar de outro, dependendo do papa que esteja reinando.

Só uma coisa a ressaltar: apesar de me considerar conservador, tenho meus pontos de discordância com os demais conservadores justamente onde minha visão se aproxima da do Jefferson e demais tradicionalistas, isto é, com relação à critica ao CVII.

Se algo ainda não ficou suficientemente claro, peço desculpas. É só colocar no comentário e eu explicarei melhor. Os demais leitores que tiverem outras dúvidas sobre o mesmo assunto, ou que sejam ligadas a ele, podem também expressar isto nos comentários.

Espero ter ajudado. 🙂