Libertação

É comum vermos pessoas que têm boas idéias ou um bom coração, e que desejariam “fazer grandes coisas”, “fazer a diferença”, “deixar a sua marca”. A grande maioria passa a vida inteira sem conseguir. Principalmente quando se trata de nós cristãos, a exigência de fazer grandes coisas parece apelar mais insistentemente a nós, pois é grande o estrago causado pela secularização e o trabalho de resgatar os homens para Deus parece uma tarefa impossível na maior parte do tempo. Desde a minha adolescência tenho observado que as pessoas normalmente não conseguem realizar grandes feitos, não porque não sejam humanamente capazes, mas porque impõem a si mesmas certas “prisões psicológicas” que levam à escravidão interior.

Esta parte do Campo de Batalha é a única que não pretende transmitir conhecimento, e sim sugerir algumas estratégias de ação e pensamento. Estas estratégias foram tiradas das minhas observações pessoais e daquilo que eu pude aprender da Doutrina Católica, principalmente com a Teologia Ascética.

 

Exemplos de escravidão interior

O exemplo mais patente de escravidão interior é o das pessoas tímidas. Não me refiro aqui diretamente às pessoas tímidas no convívio com outras pessoas, embora seja comum que a timidez apresentada aqui exista juntamente com a do convívio social. A timidez da qual eu falo aqui é a timidez moral, a sensação de nunca estar preparado para dar sua contribuição ao serviço do bem. São pessoas que não se sentem preparadas para ensinar, para debater ou para liderar esforços concretos.

Outro exemplo de escravidão interior é o das pessoas que, tiranizadas por suas paixões – relacionamentos românticos, ganância, inveja, vícios – Podem até querer fazer o bem, mas frequentemente só conseguem causar sofrimento a si mesmas e aqueles que vivem em volta.

 

As prisões psicológicas auto-impostas

Estes e outros modos de escravidão interior são mantidos porque a pessoa não se libertou das chamadas prisões psicológicas auto-impostas que são hábitos interiores que previnem a pessoa de agir como ela deveria.

A primeira destas prisões é a auto-indulgência, que nos impede de fazermos sacrifícios. Trata-se de um desejo desordenado de não sofrer o menor incômodo. É a raiz de todas as outras prisões auto-impostas.

A auto-indulgência gera o medo e o comodismo. O medo é uma reação instintiva e, em muitos casos é até mesmo necessário à sobrevivência. Mas nem tudo o que nos causa sofrimento é absolutamente mal, e o medo dos pequenos sacrifícios e moléstias aos quais estamos sujeitos impede a pessoa de arriscar. Para fazer mos grandes coisas, temos que assumir alguns riscos. Já o comodismo é a aversão ao esforço, seja ele físico ou mental. É sempre um desejo desordenado. Para fazermos grandes coisas é necessário fazermos grandes esforços na maioria das vezes.

Por fim, o medo e o comodismo geram a descrença nas próprias capacidades e, se eu não acredito que sou capaz de algo, a tendência é não tentar. Não se trata aqui daquela bobagem de que “um homem tem que acreditar em si mesmo”, pois como Chesterton demonstrou em sua grande obra Ortodoxia, o lugar onde as pessoas realmente acreditam em si mesmas é o asilo de loucos. Não devemos acreditar “em nós mesmos”, mas em Deus e nas capacidades com as quais ele dotou o gênero humano. E com estas coisas em mente devemos trabalhar duro e perseverantemente.

Auto-crítica severa

Se a auto-indulgência é o caminho para o aprisionamento, o caminho para a libertação se inicia na auto-crítica severa. Cada canto da nossa mente e do nosso coração deve ser vasculhado em busca daqueles atalhos emocionais e intelectuais que tomamos e que acabam nos escravizando e nos impedindo de cumprir nossa vocação humana e cristã. Não devemos ser gentis com nossos pensamentos e ações, devemos nos avaliar com o olhar de um examinador rigoroso, que não permite falhas e que as pune com medidas severas.

A humildade é a virtude que mais contribui com a auto-crítica severa e tudo o que pudermos ler daquilo que os santos e teólogos da Igreja escreveram sobre a humildade nos ajudará no caminho para a libertação psicológica.

A auto-crítica severa é uma atividade que ajuda no exame de consciência para a confissão sacramental, e o hábito de nos confessarmos frequentemente e de realizarmos penitências o tanto quanto possível severas são, em contrapartida, auxílios preciosos na atividade da auto-crítica psicológica.

Libertação final

A libertação final, aquela que vai nos garantir a capacidade de fazer grandes coisas tem dois aspectos principais: o auto-domínio, conseguido principalmente com a ascese, e o espírito empreendedor e industrioso, que deve ser incentivado desde a educação dos jovens.

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