Casamento

No ultimo dia 16 de maio eu e minha esposa fizemos um ano de casados. Nossa curta experiência de uma vida familiar me fez chegar a uma conclusão, e a conclusão a que eu chego neste primeiro aniversário é que nós funcionamos como casal. Com isso, não quero dizer que nós nos sentimos bem na presença um do outro. Também não quer dizer que nós “trabalhamos bem juntos”, como uma equipe ou um time. Também não quis insinuar nenhuma conotação sexual nesta frase. Na verdade, todas essas coisas acontecem conosco, acontecem apenas por serem componentes daquilo que eu quis dizer com “funcionamos como casal”: sozinhas, estas coisas não bastam.

Para que uma máquina funcione bem, não basta que suas engrenagens se encaixem bem: existe um combustível adequado; um óleo lubrificante adequado; a carga que ela move não deve ser muito pesada, nem muito leve; existem níveis de vibração bem exatos que podem prejudicá-la e que por isso devem ser evitados. Ou seja, quem opera uma máquina não deve apenas pensar em termos de engrenagens, mas deve pensar na “coisa toda”. E quando digo “coisa toda” não digo só “a máquina toda”, mas “a maquina junto do processo no qual ela vai atuar”. Cuidar de uma máquina e fazê-la durar envolve não só trabalho mecânico: é necessário um trabalho intelectual sobre ela.

Um casal é, de uma certa maneira, uma máquina. Ele é uma espécie de motor da família, que é um núcleo da comunidade humana. A família foi projetada para produzir seres humanos e não apenas no sentido físico, mas também no sentido moral: ela não deve apenas gerar corpos, mas também formar consciências.

O que eu quis dizer quando falei que eu e minha esposa funcionamos como casal foi que nós não pensamos mais como indivíduos e sim como casal. Não pensamos mais como fragmentos, mas juntos formamos uma unidade. Nossas vontades individuais são bobagens em face do que somos agora: somos um casal.

É certo que um dos grandes problemas do mundo atual é o coletivismo, a massificação, e que o único modo de combatê-lo é estimular as pessoas a desenvolverem sua individualidade. Sou um dos que mais defende essa idéia e por isso pode parecer estranho que eu recomende essa “suspensão da individualidade”. Porém esta suspensão da individualidade está a serviço de uma individualidade mais importante: a individualidade dos filhos do casal. Pois um dos objetivos da educação dos filhos é fazer com que eles desenvolvam sua individualidade, que porá em evidência sua vocação.

Não me conformo quando alguém me diz que eu e minha esposa tivemos sorte. Nosso sucesso como casal não se deve a um golpe do acaso e sim ao fato de pensarmos como casal. Nós renunciamos a algumas vontades que temos como pessoas e isto exige sacrifício e paciência. O risco de se pensar que os casais são bem sucedidos por causa da sorte é aquel sina das pessoas modernas de terem tanta dificuldade em achar a “pessoa certa”com quem devem passar o resto da vida.

A pessoa certa é aquela por quem você está disposto a renunciar ou atenuar sua individualidade.

Como podemos conseguir o que queremos?

É importante tomarmos consciência da importância das nossas escolhas. Tudo o que queremos em nossa vida e boa parte do que nos acontece é consequência daquilo que escolhemos. O fato é que atualmente a grande maioria das pessoas ou passa a maior parte do tempo culpando outras pessoas, ou passa a maior parte do tempo em “piloto automático“, sem muita atenção a detalhes que os fariam tomar melhores decisões. E a vida se torna cada dia mais injusta e entediante para quem age assim.

Eu tive um professor de filosofia no ensino médio que disse em uma aula que “Querer é poder” era apenas uma ideologia. Isso me incomodou um bocado, mesmo que na época eu não soubesse exatamente por quê. Outra pessoa importante para justificar este incômodo foi minha amiga Rafaela. Por volta desta época tivemos um debate em que eu afirmava que tudo o que nós fazemos é fruto de escolha direta nossa. Ela afirmava que nem tudo: havia outros fatores que nos levavam a fazer certas coisas que não a escolha. Hoje eu diria melhor: é claro que existem outros fatores que determinam nossas ações, mas eles são apenas etapas intermediárias, numa sequência que começa e termina com escolhas nossas.

Por exemplo: se um pai diz para uma criança fazer o dever de casa e ela faz mesmo não querendo, pode-se dizer que ela fez porque foi obrigada. Não foi uma mera escolha da criança, que se pudesse não faria o dever, mas uma obrigação. Só que, reparem, existem crianças desobedecem seus pais. Se tanto uma, quanto outra coisa são possíveis, então em algum ponto esta escolha teve de ser feita. A cadeia é mais ou menos assim: a criança escolheu não mais apanhar após isto ter acontecido em certa ocasião. Devido a esta escolha, ela escolhe respeitar seu pai. Seu pai determina que sinal deste respeito é ela fazer a lição. Enfim, ela escolhe fazer a lição. Como se vê, o pai determinou um padrão, mas ainda foi escolha da criança seguí-lo.

O que me incomodou no tempo do ensino médio, e que fosse eu mais esperto teria respondido ao meu professor, é que tudo bem que não é o simples querer que é poder. Não é a simples escolha que me faz alcançar um objetivo, mas sim um conjunto articulado de escolhas. Isto é o “pé no chão”, é a realidade: não basta querer, tem que saber “o que querer”, o que devemos querer fazer em cada etapa do processo. Aí sim, querer se torna poder, porque contornamos os fatores externos, impossíveis de serem mudados, com uma série de escolhas que vão aos poucos moldando a nossa realidade em direção àquilo que realmente queremos.

Se algo nos incomoda ou prejudica, nem sempre se trata de uma injustiça. Na maioria das vezes é apenas uma questão de perceber o que realmente é possível e o que não é, e saber exatamente como lidar com um e com outro.