Imortalidade da alma e ressurreição dos mortos – Parte I

Nota do Captare: Este artigo me foi enviado pelo professor Francisco Silva de Castro, o mesmo que me enviou o comentário que originou a postagem Sobre o Cristianismo e o Mitraísmo. O artigo deu início a um pequeno debate sobre a imortalidade da alma e concepções teológicas sobre essa matéria. O prof. Francisco achou interessante que o debate fosse levado adiante aqui no site e eu concordo com ele. Por isso, faremos o seguinte: estou publicando o texto na íntegra, do modo como ele me foi enviado. Na Parte II, vou tentar fazer um resumo do debate até o ponto em que nós o interrompemos e o Prof Francisco vai poder fazer qualquer correção que ele julgar conveniente ao meu resumo no primeiro comentário à postagem. Depois, se for o caso, nós prosseguiremos o debate nos próprios comentários da Parte II.

Eis o artigo:

Imortalidade da alma e ressurreição dos mortos

A CONCEPÇÃO HEBRAICA ANTIGA

As almas dos mortos eram como sombras presas no Cheol. Não tinha uma vida igual a dos vivos. Estavam como que adormecidas, numa semi-vida  sem alegria, sem consciência da vida no mundo e esquecidas de Deus. Só Deus poderia livrar do Cheol e ele livrava impedindo que uma pessoa  morresse . A felicidade consistia em uma vida longa sobre a terra. Cf. 37,33-35;  Gn. 42,38; Ecl.  9,5-6

A COMPREENSÃO NO HEBRAISMO RECENTE

Após o cativeiro dos judeus par a Babilônia o xeol passou a ser a morada dos mortos, mas nestes as sombras, ou pessoa falecidas, estavam separadas. Os bons estavam nas mãos de Deus ou no seio de Abraão e os maus num estado de sofrimento. (Lc. 16, 19-26)  A ressurreição era a esperança  dos que faleciam. E esta ressurreição se daria no dia do julgamento  no final dos tempos.  (Jo. 11, 23-24)

A CONCEPÇÃO DO NOVO TESTAMENTO.

Cristo conhecia a doutrina judaica da Ressurreição. E afirmou a mesma para o povo quando questionado pelos Saduceus que a negavam. Os mortos ressuscitam. Cristo não diz apenas Ressuscitarão. (  Lc. 20, 37-38)  Mas em outras ocasiões Cristo faz também referencia a uma ressurreição no final dos tempos. (Jo 5,28-29; 6,40) Outra entendimento de  ressurreição dos mortos  é a manifestação do caráter de uma pessoa morta em outra viva. Como o poder de fazer milagres de um profeta manifestado por outro.(Lc 9, 7-8. 18-21; 20, 37-38; Mt 16,13-14;Mc 6,14-16) Então este profeta  ressuscitou  reaparece  por sua atuação em outra pessoa. Algo parecido com o o ditado popular “este menino puxou todas as manias do pai ou é tão ruim como a mãe.” Para os judeus as  habilidades de uma pessoa morta presentes em outra viva era uma espécie de ressurreição do espírito daquela pessoa falecida.Por isso o povo diz que Jesus é Elias, João Batista ou outro profeta que ressuscitou.

ALMA PARA O JUDAÍSMO

A doutrina dos judeus não entendia a alma como independente do corpo. A alma era necessária ao corpo e  junto corpo e alma formavam o homem. A alma não habitava  o corpo e o conduzia como faz um motorista em um veiculo. Corpo e alma estavam permanentemente unidos e um não poderia existir sem o outro. O ser humano era uma alma vivente e não um ser que tinha  alma. Cf. Gn 2,7.

A ALMA NA CONCEPÇÃO GREGA

Esta não dependia do corpo. Era por natureza imortal e alguns até entendiam que precedia o corpo. Este era como a vestimenta da alma.  Por ser espiritual era imortal por natureza a alma podia mudar de corpo quanta vez quisesse. Como entidade livre a alma poderia animar o fazer viver vários corpos com que trocando de roupa.

IMORTALIDADE DA ALMA E RESSUREIÇÃO.

IMORTALIDADE EM JUSTINO (Sec II)

Justino  já professa a fé de que os mortos  estão consciente e são punidos ou  recompensados  logo após a morte. Escreve no Diálogo com Trifão: “ As almas dos homens piedosos fuçarão  num lugar bom , as  dos ímpios  e malvado noutro muito mal, esperando o tempo de juízo. E assim as primeiras, se forem julgadas dignas diante de Deus, nunca mais hão de morrer, as outras, serão punidas por tanto tempo quanto   Deus quiser  que existam e seja castigadas. (Antologia dos Santos Padres, Folch Gomes, Cirilo,São Paulo, Paulinas, 1979 p. 74) Com efeito, para Justino, a morte das almas seriam uma grande injustiça para os bonés e uma vantagem para os maus que não sofreriam imediatamente pro seus atos.

IMORTALIDADE DA ALMA NA IGREJA ANTIGA E  MEDIEVAL.

Logo após a morte as almas ganham um destino eterno. No céu ou no Inferno. A ressurreição é apenas uma confirmação desta situação. O corpo ressuscitado será o mesmo que temos, mas não haverá mudança de estado após a Ressurreição. Há quase uma  autonomia absoluta da alma semelhante à  concepção grega. Esta é imortal porque foi criada para ser imortal. Faz parte da sua natureza a imortalidade. Por isso a ênfase em salvar a alma. Nesta compreensão a ressurreição da carne é secundária. O corpo ressuscita apenas para se unir alma e compartilhar de seu  sofrimento ou  da glória. Mas a alma por si mesma é que detém todas as propriedades da pessoa: Consciência, vontade, inteligência e absoluta autonomia em relação ao corpo.

IMORTALIDADE DA ALMA NA TEOLOGIA MODERNA.

Aqui há uma retomada da concepção hebraica. Alma e corpo formam uma unidade. Um não vive sem o outro. Alguns teólogos afirmam  que a ressurreição se dá logo na norte. Como não haveria mais o tempo na outra vida, logo após a morte, se daria o juízo final e alma se veria  no fim dos tempos. Difícil conciliar com o que pregou e acreditava Jesus. Em todo o Novo Testamento o fim dos tempos é  um evento  cósmico universal e que se identifica com a volta do Cristo. Dá-se no tempo e progressivamente. (Cf. Jo5,29; Mt  25,31-46;) Alem disso se todos que morrem ficam livres do tempo então eles se tornam iguais a Deus. Pois só Deus não é preso ao tempo. A Eternidade e Deus são uma e mesma realidade. “Para o cardeal Ratzinger, a eternidade, como posse total e simultânea do todo, é própria apenas de Deus. Somente Deus há o eterno presente.” Pe. Elílio de Farias Matos Junior, artigo Entre a morte e Ressureição Parte III. Outros entendem que a alma  sozinha não está completa. Reafirmam com ênfase a Ressurreição do  corpo para se refazer esta unidade que forma a pessoa humana,  pois esta é  composta de corpo e alma. Mas entendem  a alma como  o motor de um automóvel.

“Para poder desabrochar  na plenitude do seu ser , para ser inteiramente aquilo que deve ser , a alma precisa do corpo, porque foi criada para  estar unida a ele e estaria incompleta sem ele (…)Com perdão da comparação , um tanto rudimentar ,estamos diante de algo semelhante a motor de um automóvel  que está projetada para funcionar  em conjunto com o corpo desse automóvel. A Sabedoria do Cristão,  Trese, Leo J.  Tradução de  Roberto Vidal da Silva Martins, Rei dos Livros, Lisboa, 1992 p. 27

Neste caso a alma está viva apenas para Deus, na mente do Eterno ou não teria uma vida espiritual plena. Como bem continua o autor no mesmo livro “É bem possível retirar um motor e pô-lo a funcionar sob uma bancada,  isolado do chassi…” A Sabedoria do Cristão,  Trese, Leo J.  Tradução de  Roberto Vidal da Silva Martins, Rei dos Livros, Lisboa, 1992 p. 27 Mas que utilidade teria um motor de automóvel sem o automóvel? E porque colocá-lo para funcionar sem o próprio automóvel?  Neste caso a alma não teria o pleno domínio de seus atributos que são a consciência, a vontade e a relação  com outros e  com Cristo e Deus. Seria inútil e desnecessário sobreviver à morte.

REUSSUREIÇÃÃO E IMORTALIDE DA ALMA: UMA CONCILIAÇÃO POSSIVEL

Compreendendo que sendo o ser humano composto de alma e corpo, ele não é só a alma e nem muito menos só corpo. Então a morte desfaz esta unidade. A sobrevivência da alma não implica na sobrevivência da pessoa. A alma está para o corpo como um chip está para um celular.  Ou um programa de computador  está para  a CPU, a parte material do mesmo. Posso ter o chip ou programa, mas este só funciona se eu tiver o aparelho. No entanto se tanto a alma e o corpo se destroem com morte, a ressurreição consistiria em uma nova criação da pessoa. Uma espécie de clone da pessoa morta. E desta foram não seria uma verdadeira ressurreição. Sendo alma que possui todas as faculdades espirituais tais como racionalidade, vontade e consciência, a Ressurreição individual se dá na hora  morte e não depois da morte, num sentido de uma morte total da alma e do corpo. Neste caso a alma forma um veículo sutil ou provisório substancialmente idêntica à si mesma. Este “corpo” não é o nosso corpo humano atual ressuscitado. É um “veículo”  da alma e para a alma . Um meio para a sua plena manifestação no mundo espiritual. Nem tampouco é um corpo espiritual, o corpo sutil ou astral,  no sentido como  o  entendem os esotéricos e os  espíritas ( o Peri – espírito)  já que não está unindo   o nosso corpo mortal à alma e não é um terceiro composto da natureza humana. É um veículo que possibilita alma manter relação com Deus e  com as outras almas. Que lhe dá a possibilidade de manifestar-se no mundo físico porem de forma indireta, provocando sensações  aos  sentidos dos vivos, que são ocasionados pela alma com a permissão de Deus. Esta é a razão das aparições dos muitos santos. Este “corpo da alma” difere do corpo da ressurreição final porque na ressurreição teremos  o  nosso próprio corpo material idêntico ao nosso que já se desfez no tumulo.”Ele vai transformar o nosso corpo frágil  tornando-o semelhante ao  seu corpo glorioso.” (Fl 3,21). O corpo ressuscitado no último dia será um corpo substancialmente idêntico ao corpo humano biológico. Terá a possibilidade de assumir neste mundo todas as propriedades do corpo  atual e ao mesmo tempo todas as propriedades de um corpo espiritual como o descreve São Paulo. (Cf. 1Cor. 15, 12-15; 2Cor 5, 1-5;)  Na verdade este corpo glorioso  é fruto do nosso corpo atual pois nosso corpo humano é como uma semente para o outro corpo ressuscitado.Não poderemos chegar à ressurreição sem passar primeiro por este corpo mortal e este será um corpo apto a  viver em dois mundos. O material e o espiritual.  Tal e qual Jesus que se apresentou comendo e podia ser tocado e sentido com carne e osso. (Cf. Lc 24, 36-43; Jo 20, 27; Jo 21, 1-14)) Não foi uma visão  provocada pela alma. Foi uma relação física verdadeira. Jesus se quisesse e fosse conveniente poderia viver agora aqui na terra tal como viveu antes de morte. Todas as faculdades físicas do seu corpo funcionariam normalmente. Da mesma forma no mundo espiritual Jesus tem como manter  comunicação real com todos os mortos inclusive com aqueles que ainda não ressuscitaram no corpo glorioso do final dos tempos. Pois ele é o Senhor dos mortos e dos vivos. (Rm 9,14). Isto em vista da alma ter um “pré- corpo” um corpo psíquico com o diz São Paulo em 1Cor 15, 44) De ter Deus dotado a alma da imortalidade na hora da morte  e esta possuir outra tenda nos céus  logo depois da morte. (2Cor 5, 1-8) Mas se é assim então porque ressuscitar o corpo humano material e idêntico ao que a  pessoa tinha antes de morrer? Muito simples. Este “corpo” substancialmente idêntico à alma não é um corpo humano. Não é substancialmente idêntico ao nosso que se desfez no túmulo. (Jo 5,29).”Não vos admireis com isto: vem a hora em que todos os que repousam no sepulcro ouvirão a sua voz e sairão.” Jo 5,28. Os que repousam no sepulcro são apenas todos os que morreram. O texto não indica que os mortos estejam literalmente nas sepulturas, já que este repouso se refere ao corpo e não a alma, ou à consciência individual. No caso, esta espécie de corpo ou veículo da alma é o meio para  que esta  possa  estabelecer relações umas com as outras e com o Cristo Ressuscitado. Seria como um  Hardware provisório, para um software (alma) que não foi destruído com a morte. Na verdade ele é criado em vista da ressurreição do corpo glorioso e se desfará neste com a ressurreição da carne  no ultimo dia..  Por isso Jesus diz que os mortos ressuscitam logo na hora da morte e também no final dos tempos. Cf. Mt  22, 29-32; Lc 20,34-36; Jo  11, 25) Além  disso nunca uma alma poderá  se manifestar  como uma pessoa ressuscitada neste mundo  e nem tampouco viver nele. A ressurreição se dá no  final dos tempos porque teremos  uma outra Terra livre do mal  e do pecado, em que habita a justiça  e em que os ressuscitados poderão  viver como antes da morte.Um mundo vindouro como refere Jesus ou um mundo renovado como se ler em  certas traduções do Novo Testamento. (cf. Luc 20,34) em que os maus não estarão mais presentes. Serão cidadãos de um novo mundo e de dois mundos . É neste sentido  que São Pedro diz que haverá um novo céu (onde os corpos ressuscitados manifestam suas faculdades espirituais e  outro onde os ressuscitados podem viver  normalmente em uma nova Terra como pessoa,  com  corpo e alma. .( 2Pd 3, 13 ). O Universo estará  preparado para as duas realidades  que constituem a pessoa humana. Esta é a liberdade da natureza de que fala o Apostolo Paulo.(Rm 8, 19-21) O corpo e a  alma  juntos para sempre num universo incorruptível manifesta a  absoluta vitória sobre a morte.(1Cor 15, 26.50-55) É uma vitória absoluta  já que a morte não será mais necessária  nem mesmo do ponto de vista da matéria e da vida. Sem a morte de outros seres se  extinguiria  também a  vida na terra  porque um ser  depende da morte dos outro para sobreviver. A morte é um fenômeno puramente natural em relação à vida. Mas para seres racionais-nós humano- os únicos que possuem a consciência da própria mortalidade a morte é uma tragédia inaceitável. Uma verdadeira punição, pois aspiramos à imortalidade sem passar pela morte.Assim como na terra temos o instinto de sobrevivência nossa alma traz em sim o instinto de imortalidade. Nenhum ser racional aceita a morte como um bem, se estiver física e psicologicamente saudável. Nem mesmo a esperança do céu após a morte motiva um ser humano a morrer. Bem gostaria de ir para o céu, alem de bem idoso,sem precisar morrer.Por isto a própria morte é a verdadeira punição pelo pecado, que só poderia ser cometido, por seres racionais e livres.Desejaríamos ser revestidos do corpo imortal sem morrer como disse o Apostolo São Paulo. (2Cor 5,4).

Também não haverá  com a  ressurreição,  a  necessidade de alimento material . Viver-se-á da gloria de Deus e de sua luz. Não haverá transformação da matéria pela morte  na nova terra.  Porque ressuscitado e mantendo as faculdades próprios de um corpo físico, estão livres da dependência destas necessidades físicas. Poderão se alimentar por  prazer  e devido a sua real materialidade porém  nunca por necessidade. Desta forma a imortalidade da alma ou a  sobrevivência desta por uma primeira ressurreição na morte (Ap 20,6) e a ressurreição corporal ao fim dos tempos, ficam conciliadas, eliminando-se as contradições de uma concepção dual do ser humano, como a entendia a filosofia grega  estranha à concepção bíblica do ser humano,excluindo-se  também  a  recriação da pessoa se a ressurreição da se desse depois da destruição do corpo e da alma na hora da morte e fazendo-a  igual a Deus, concedo-lhe uma eternidade absoluta, por esta entrar no final dos tempos ao morrer, ou então concedendo à  alma   uma liberdade absoluta em relação ao corpo, relegando  a ressurreição da carne a  um mero complemento, sem necessidade, ou simples acréscimo à alma, que por si mesma constituiria a pessoa;  quando na verdade  esta é uma unidade indissolúvel  de corpo e alma.

A ALMA É IMORTAL POR SUA PROPRIA NATUREZA?

A Rejeição da imortalidade da alma entre os teólogos modernos decorre do fato de que esta concepção seria uma infiltração da concepção grega sobre a pessoa humana. No entanto a Doutrina da imortalidade da alma foi definida pela Igreja é esta fundamenta o juízo particular ocorrido logo após a morte. Muitos teólogos entendem que ao morrer, tanto morre a alma como o corpo. E a ressureição se dá logo após a morte e o morto já está na ressureição final. Esta teoria teológica é defendida entre outros, pelo Teólogo Leonardo Boff. E não se harmoniza como a doutrina tradicional da Igreja.

A alma poderá sobreviver à morte, porque  a pessoa humana  foi criada para a imortalidade e a morte entrou  no mundo por causa do pecado. E não é imortal por sua natureza espiritual. Se assim o fosse não teria sido criada para unir-se a um corpo feito  para ela e dessa forma constituir a pessoa humana. E  dessa forma seriamos iguais aos anjos em natureza, quando morrêssemos, ou então, nossos espíritos poderiam ser  pré-existentes ao corpo, como crerem muitas doutrinas espiritualistas.

A imortalidade da alma decorre da futura ressureição e não de sua própria natureza espiritual. Pois sendo, a alma, a forma do corpo de acordo com Santo Tomás de Aquino, se esta morresse junto com o corpo, não teríamos verdadeira ressurreição, pois tanto a alma como corpo seriam novamente criados. E o corpo unido novamente a esta alma, não seria substancialmente, idêntico àquele que se decompôs no sepulcro. Estaríamos de fato perante a uma recriação da pessoa humana; algo como que um clone daquele que morreu; mas não uma verdadeira ressureição. Nem nos tornaremos iguais a  Deus,  possuindo a eternidade absoluta,  se a ressureição e juízo final  fosse  logo após a morte,  como a entendem os teólogos modernistas. Além disso, teríamos por toda eternidade dois mundos paralelos e jamais a vida de um novo mundo, onde se manifestaria o triunfo de Cristo e a derrota do mal.

A doutrina daí imortalidade da alma, mesmo influenciada pela  concepção dualista grega, da natureza humana, foi providencial para que o mistério da ressureição dos corpos implicasse num verdadeiro  ressurgimento da pessoa humana. Não haveria  de fato ressureição se desta nada não é conservado. Então a alma deve à sua imortalidade por causa da ressurreição do corpo e da reconstituição da pessoa e não é um direito decorrente de sua própria natureza espiritual.

O CASO DOS QUE MORREM ANTES DA IDADE DA RAZÃO

Nosso Senhor é bem claro no que se refere aos meios da Salvação eterna. O fundamental é professar a fé nele como o único nome por meio do qual temos a salvação da condenação eterna, renunciar ao mal e praticar o bem. No entanto muitos morrem sem a capacidade de fazer esta escolha, como é o caso dos que falecem antes de crer ou de fazer o bem e renunciar ao mal; Isto ocorre com os   que são abortados ou morrem logo depois de nascer. Até o presente nunca li uma teoria teológica ou pronunciamento do magistério da Igreja que solucionasse esse problema. Em relação aos que morrem sem batismo a Igreja indica o limbo (Estado de bem aventurança sem a contemplação de Deus) ou conforme o  Novo Catecismo da Igreja Católica, esta em sua liturgia os entrega à misericórdia de Deus. (CIC Nº 1258-1283). Outros entendem que a salvação estaria garantida a todos os que morrem antes da idade da razão porque nunca pecaram. Mas seriam injusto que uma pessoa criada para salvar-se em Cristo obtenha a salvação por haver morrido antes de realizar esta escolha e exercer o livre arbítrio, preferindo  o bem e evitando o mal. Mais  vantajoso  seria  morrer  no ventre materno ou logo ao nascer, que crescer e correr  o risco de perder-se para sempre. Não deixa de se apontar neste caso uma injustiça de Deus, que sendo onisciente por certo saberia os que morrem antes de chegar à idade de poder realizar escolhas morais e desta forma já os criaria com a salvação garantida. Perante  esta situação os  que  crêem na reencarnação se apóiam para tornar evidente que Deus nunca criaria almas para deixá-las sem a possibilidade de desenvolvimento e que se as criou para Terra, justo seria que as enviasse novamente a terra para que tal e qual os outros tivessem a possibilidade de desenvolver todas as faculdades inerentes à alma: Racionalidade, liberdade e vontade. Porem como definimos anteriormente, a alma não é um hóspede num corpo destinada a mudar de corpos. A alma é parte  fundamental da  pessoa humana e forma uma unidade com o corpo de modo que cada alma foi criada para um corpo e o corpo para ela. A morte desfaz esta unidade que a Ressurreição final Irá refazer. Porem como fica  o caso dos que morrem antes da idade adulta ainda incapazes de discernir entre o mal e o bem? Entre a fé e a infidelidade  a Cristo? Deus ao criar todas as criaturas juntamente com estas criou todas as possibilidades possíveis a estas criaturas. Em relação aos seres vivos, as possibilidades de não crescer, de procriar ou não reproduzir-se, de morrer antes de desenvolver-se, de adoecer, das deficiências físicas; de nascer apenas para um dia ou um minuto na terra. Alem daquelas que originadas por causa do pecado. No que se refere aos seres racionais- os humanos- Deus na sua onisciência eterna previu que muitos morreriam antes da idade da razão e definiu para estas um estado espiritual em conformidade com o seu desenvolvimento. Jesus afirmou: ”Na casa de Meu Pai há muitas moradas” Jo 14,2 Estas moradas se referem aos estados de desenvolvimento de cada pessoa na hora da morte. Os que morrem antes de nascer e na infância por certo irão para o estado conveniente ao seu nível de desenvolvimento racional. E podem desenvolver-se espiritualmente porque as faculdades da alma como a possibilidade de conhecer, crescer no amor e na vontade de servir a Deus, não acabam com a morte. São Paulo Apóstolo também indica que foi arrebatado ao terceiro Céu. 2COR 12, 2-4, confirmando as muitas moradas eternas conforme indicara Jesus. Estas almas que deixaram esta vida logo no início de sua jornada na terra, para as quais não foi possível exercer o livre arbítrio, estão confirmadas na glória por uma liberação de Deus, mas podem progredir na gloria pós-morte e alcançar maior felicidade dependendo de sua disposição em voltar-se cada vez mais para Deus, porque também diz o apostolo São Paulo: “ …quer estejamos vigilantes ou adormecidos esforçamos por agradar-lhe.”2 Cor 5,9. Acada nível de desenvolvimento uma morada conveniente. Por isso Jesus disse aos Apóstolos: “Na casa de meu há muitas moradas. Irei preparar um lugar para vós.” Jo. 14, 2 Sem duvida a morada dos mártires, dos apóstolos e confessores, daqueles que muito batalharam para manter a fé,  não será a mesma para um indivíduo que morreu logo no alvorecer da vida na terra, ou para  aquele que chegou a este mundo e viveu apenas alguns minutos; no máximo poucos anos de vida  ou faleceu antes do nascimento. Assim os abortados, os que morrem antes da idade da razão, os que nunca ouviram falar de Cristo, os pagãos que agirem em conformidade com sua consciência, e obedecerem à lei natural, terão a morada peculiar ao seu estado quando saírem deste mundo. Deus é absoluta justiça e não criaria uns para conquistar a vida eterna após muitos perigos, muitas tentações, e outros para a mesma gloria que os primeiros, pelo simples fato de morreram logo no iniciar da vida terrena. Não há uma só possibilidade inerente às criaturas, que Deus não tivesse prévio conhecimento e juntamente com este a solução adequada. Como toda criação é imperfeita por ser criação e ao mesmo manifesta perfeição possível, por haver sido criada por Deus, Deus providenciou  que todas as criaturas chegassem a  receber o que lhes é devido, no caso de nós humanos, o que é adequado a situação de cada pessoa nascida nesta terra. No que se refere aos corpos destes que morrem precocemente, eles ressuscitarão com um corpo material glorioso, que está liberado das limitações do corpo presente e poderão assumir a forma do corpo adulto que não tiveram na terra.

CONCLUSÃO

A alma não constitui uma entidade separada do corpo e independente deste. Tendo sido criada para o corpo e este para esta, um não pode existir separado do outro indefinidamente. Se a alma fosse por natureza própria imortal, a punição pelo pecado seria a sua união com o corpo, a sua descida à matéria, como acreditavam os gnósticos e crêem hoje, os esotéricos e espíritas. A finalidade da existência seria libertar-se da prisão da matéria e não a morte, pois sendo independente em relação ao corpo o ideal de existência da alma seria libertar-se de sua prisão ao corpo.

Porem  a morte do corpo não implica também na morte da alma e a entrada do pessoa no ultimo dia, na ressurreição final em que dois mundos paralelos nunca haveriam de se encontrar e fazendo a pessoa, possuidora da eternidade tal e qual Deus, porque estaria livre do tempo. Deus ao criá-la a fez para uni-la ao corpo e constituir a pessoa. Tendo entrado o pecado no mundo, pela desobediência dos primeiros pais, este trouxe a morte. Sem o pecado, nós em enquanto pessoas,  estaríamos destinados à glorificação sem passar pela morte, Conforme Paulo escreveu em relação aos vivos, por ocasião da segunda vinda de Cristo.”Sim vou lhes dizer um segredo: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados. 1 Cor. 15,51s. Deus nos criou para a ressurreição e não para sermos almas penadas; em vista desta ressurreição a alma possui a imortalidade como dom de Deus.

A imortalidade da alma é, portanto, dom de Deus concedido na hora da morte. Os homens têm o poder para tirar a vida do corpo, mas nada podem fazer à alma. ”Não temam aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” Mt10,28.Deus poderia destruí-la, mesmo sendo ela espiritual. Mat. “Temam, sim aquele que fazer perecer a alma e o corpo no inferno.” Mt10,28A  imortalidade não vem da própria natureza da alma porque o pecado trouxe a morte da pessoa completa; porém em virtude da ressurreição de Cristo e em vista da ressurreição futura da pessoa, a alma  é preservada da morte. Criada do nada para a existência e unida a um corpo próprio e definitivo, a separação entre alma e corpo é a verdadeira punição do pecado, conforme afirma Paulo “O Salário do pecado é a morte” 1Cor 15, 56 Mas a vitória sobre a morte é a Ressurreição da pessoa, corpo e alma, no ultimo dia ,na renovação do mundo,  quando Deus manifestar a nova terra e o novo céu transfigurados e libertados de toda corrupção,

A alma foi criada para a imortalidade em vista da ressurreição do corpo e o nosso corpo foi criado para a Ressurreição, em vista de reconstituição da pessoa humana e  esta, que é unidade inseparável de corpo e alma, para a Vida Eterna com Cristo.

Prof. Francisco Silva de Castro. ( Licenciado em Ciências Religiosas– Icre-CE.)

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