Experiências religiosas

Hoje em dia é muito comum se ouvir falar em experiências religiosas, ou experiências espirituais. Infelizmente, até os teólogos entraram nessa onda. Digo infelizmente porque o que se entende comumente por experiência religiosa não passa de um conjunto de sensações e impressões confusas. O que é uma grande futilidade! Além de cheirar gravemente à heresia do modernismo!

Para essa gente, ao que parece, não adianta de nada toda a advertência da verdadeira teologia, principalmente a teologia ascético-mística, que diz que eventos sensíveis de origem divina, isto é, experiências místicas autênticas são apenas aquelas que confirmam o fiel na fé da Igreja Católica. A campanha mundial de “glamourização” da ignorância, que começou com o romantismo e com o humanismo, conseguiu inverter esses valores: hoje se considera que o simples fato de haver algum fenômeno sensível é prova irrefutável de que foi um fenômeno místico autêntico. Se esta experiência contraria a doutrina católica, tanto pior para a doutrina católica…

Futilidade. Que cheira a heresia.

No Domingo passado, entretanto, posso dizer que eu tive uma experiência religiosa legítima! E afirmo isso mesmo na ausência de fenômenos sensíveis extraordinários: não houve fenômenos sensíveis extraordinários! Tudo o que vi, ouvi e senti estava concretamente lá. O que houve de extraordinário foram as várias conexões de sentido entre os eventos, e o modo como estas conexões e estes eventos confirmam a doutrina católica. Claro. Senão não seria experiência mística autêntica.

Para começo de conversa, fui à minha primeira Missa no Rito Gregoriano (Missa Tridentina, Tradicional, pré-conciliar, etc.). O que me levou lá foi algo em si mesmo extraordinário: estaria presente meu grande amigo Frei Egídio-Maria Monteiro de Carvalho, que estudou comigo no ensino médio, e hoje está seguindo os passos de São Tomás de Aquino nos dominicanos. Acontece que há vários dias estava pensando em escrever ao frei e no Sábado fui surpreendido pela manhã com um e-mail seu, dizendo que ele estava no Brasil. Mais à frente, explico a importância do frei na minha relação com a Missa e com o próprio conservadorismo.

Para quem quiser ouvir eu sempre digo que, apesar de não considerar a Missa Paulina (Rito Moderno) essencialmente prejudicial, considero a Missa Gregoriana teologicamente superior. As razões são bem simples: a Missa Gregoriana é claríssima nos conceitos teológicos que expressa, o que não acontece com a Missa Moderna, na qual você tem que ser um entendido para perceber a ortodoxia de sua teologia; a Missa Gregoriana é fruto de séculos de amadurecimento, enquanto a Missa Moderna foi feita no espaço de alguns anos; Existe também o aspecto prático: quem celebra a Missa Gregoriana hoje, normalmente é movido por espírito militante. O resultado disso é que é extremamente difícil ver alguém celebrando mal a Missa Gregoriana, ao passo que a má celebração da Missa Moderna é um problema generalizado! Por essas e outras, é tão importante, para mim, poder assistir à Missa neste rito.

O padre não decepcionou. Em sua homilia lembrou aos presentes a necessidade que tem o católico de fazer apostolado, mesmo que seja apenas alertando as pessoas de que estão erradas, e de que podem ir para o inferno por isso. Por mais que isto pareça paradoxal, foi reconfortante ouvir um padre falando no inferno. E falando sério! Ele usou o exemplo de São João Batista, que por dizer que o rei estava errado, foi preso e martirizado. Todo católico que faz apostolado é um pequeno mártir, principalmente quando passa pelo desconforto de lidar com a incompreensão e a rispidez daqueles a quem faz a caridade de alertar.

Este foi para mim o Frei Egídio, quando ainda se chamava Felipe e era apenas um aluno do ensino médio como eu e ainda mais novo em idade que eu mesmo. A verdade é que houve uma ocasião em que ele me humilhou profundamente. E com razão: ele estava certo e eu errado. Como eu já disse em outra postagem, naquela época eu era um defensor da reforma litúrgica que gerou a Missa Moderna, e o era simplesmente porque me sentia bem com os slogans que são usados comumente para defendê-la. Futilidade. Futilidade e rebeldia que o Frei Egídio tratou de pôr a descoberto em um debate que tivemos pelo MSN, do qual saí terrivelmente humilhado pela precisão de seus argumentos e pela paciência que ele demonstrava mesmo diante da minha afetação de indignação. Aquele debate me fez questionar profundamente meus pontos de vista sobre a Missa Moderna e sobre muito do que é moderno no geral. Foi o começo da minha conversão ao conservadorismo e ao apostolado católico de verdade. À intelectualidade de verdade, diga-se.

Percebam: fui à minha primeira Missa Gregoriana justamente para encontrar o principal responsável pelo meu reconhecimento da superioridade teológica deste rito! Disse claramente, em presença dele e da sua mãe, que foi bastante reticente quando ele anunciou sua vocação religiosa. Frei Egídio foi meu São João Batista. Eu tentei decapitá-lo e fui humilhado. Hoje eu agradeço de coração a surra moral que ele me deu.

Além destas conexões houve outras coisas dignas de nota neste dia. Estavam presentes na Missa representantes de apostolados tradicionalistas e neo-conservadores da internet, como o Sidney Silveira, a Maitê Tosta, o seminarista Allan Lopes. Pouco tempo depois de eu escrever sobre a necessária colaboração entre estas duas correntes, vejo representantes seus unidos em verdadeiro espírito de caridade, na Santa Missa e após ela!

Depois da Missa, eu iria me encontrar com minha esposa, meu irmão e a namorada dele para irmos ao monumento do Cristo Redentor. Tive que esperar cerca de duas horas na Central do Brasil, pois o centro do Rio, aos Domingos, é um grande deserto. Na central do Brasil eu descbri um espaço que eu nunca imaginei existir num ambiente assim: um altar dedicado à Nossa Senhora de Santana, também com imagens do Senhor crucificado e de Nossa Senhora Aparecida. Fiquei longos momentos ali, em oração, contemplando o crucifixo, pensando em Seu Sacrifício que tinha presenciado havia pouco.

Depois de me encontrar com minha esposa e meu irmão fomos todos aos pés de outra imagem do Senhor. Esta parte do dia também foi cheia de significados. A começar pela nebulosidade no alto do Morro do Corcovado onde fica o monumento, que às vezes escondia e às vezes revelava o Redentor. Estar no meio das nuvens e aos pés do Cristo dava a sensação que estávamos no céu. Eu estava no céu depois de ter assistido a uma Missa levada realmente a sério! O Cristo ora escondido, ora revelado pelas nuvens, faz lembrar a realidade das experiências místicas, que revelam o Cristo, mas de modo escondido, no íntimo de quem vive a experiência. Faz lembrar também a realidade de nossas lutas cotidianas, cheias de dúvidas e quedas, onde o Cristo ora se esconde, ora se revela também. Muito significativo também foi reparar pela primeira vez, apesar de já ter estado duas vezes no monumento, que aos seus pés existe uma capela, onde estava tendo também uma Missa!

Foi um dia permeado de significados religiosos. E eu afirmo que foi uma legítima experiência mística, não pelo fato de as conexões entre os eventos serem impressionantes, e sim porque tudo isso serviu para me confirmar na fé católica! Se não houveram fenômenos sensíveis extraordinários, tanto pior para os fenômenos… Além do mais, foi uma manifestação da grande misericórdia de Deus, pois, como já disse outras vezes, estou longe de merecer que Deus se mostre tão evidentemente assim para mim, mas Ele o faz assim mesmo.

Laudetur Dominus! É só o que eu tenho a dizer, diante de tudo isso.

Laudetur Dominus!!!

8 opiniões sobre “Experiências religiosas

  1. Olá, Captare.
    Fico contente por ser eu o primeiro a comentar esta sua verdadeira experiência cristã. Quem dera pudesse estar presente a uma Missa Gregoriana, e mais, visitar o Redentor! Quem dera, ainda, que as pobres almas enganadas possam perceber que a maioria dos santos da Igreja nunca “sentiu” Jesus, nunca ficou falando palavras estranhas, nunca recebeu uma “revelação” “divina”, etc e etc.
    Talvez esta sua experiência seja uma nova etapa em sua vida, que Deus permita que ela lhe dê uma revigorada, e lhe dê também o que muitos cristãos (me incluo aí) precisam: um fôlego novo para suas caminhadas.

    Um abraço fraternal!
    Leandro

    • Caríssimo Leandro, Laudetur Dominus!

      Realmente: quem dera que as pobres almas percebessem todas estas coisas. Mas acho que isso até se encaixa no que o padre falou lá: a Igreja precisa de “pequenos mártires” que digam a verdade às pobres almas, por mais que elas se decepcionem e se recusem a aceitar esta verdadeira descrição de experiência mística.

      Amém ao que disseste: um novo fôlego é justamente o que muitos de nós, que estamos envolvidos no bom combate, estamos precisando. Obrigado!

      Pax et Salutis

  2. Diogo,

    Alguma pessoas se iravam quando eu dizia que para ter uma experiência com Deus, eu não precisava “desmaiar” para repousar, não precisava de nada teatral. E seu relato confirma isso.

    Você me fez lembrar a primeira vez que fui a Missa Tridentina, veja só, celebrada por D. Rifan (que agora estimo) a quem eu já chamei de traidor da tradição (movido mais por um partidarismo do que por razões lógicas).

    Foi simplismente maravilhosa. Lá também reconheci vários membros de apostolados, mas infelizmente (me arrependo disso) não tomei a iniciativa de conversar com eles. Lembro de ter visto o Alessandro Lima, os membros do blog “Missa Tridentina em Brasília”, os “Amigos da Montfort”, e uma neconservadora (hoje não gosto dessas classificações) com quem tive árduos debates. Lá estavam “tradicionalistas” e “neoconservadores” sendo o que realmente devem ser: Apenas Católicos Apostólicos Romanos!

    Outro fato interessante. Como disse em outro comentário, depois da declaração do Papa, fiquei de uma forma terrível, na verdade por erros meus por ter Bento XVI como um Super-Papa que mudaria radicalmente a forma como a igreja está. Mas, voltando ao assunto… Em visita a Trindade GO ao Santuário do Divino Pai Eterno, vi uma cena não muito comum. Cerca de 200 jovens entre 12 e 20 anos peregrinando cerca de 10 km a pé, e cantando com uma alegria que nunca vi. E a noite esses mesmos jovens cantando na praça e anunciando para os que estavam presentes. Os jovens eram do caminho neocatecumenal (do qual minha família faz parte), um movimento tão atacado, mas que consegue fazer com a juventude o que poucos fazem. Lembro-me de uma menina cerca de 15 anos ao responder a uma pessoa o que estavam fazendo. Ela disse convicta: Estamos tentando ser Santos assim como Deus é Santo!

    Ou seja, o revigoramento de minha fé, veio de um meio não tão popular entre os tradicionalista, aliás não quero mais ser classificado nesse termo, quero apenas ser Católico.

    E são essas pequenas coisas que nos mostram a presença de Deus! Feliz daquele que souber reconhecer!

    Pax et bonvs!

    • Caríssimo Jefferson, Laudetur Dominus!

      Que bom vê-lo novamente com o ânimo de sempre! Deus te conserve assim!

      Só gostaria de fazer um comentário que talvez ainda não tenha conseguido deixar claro. Quando eu falo de “tradicionalistas”, “conservadores”, “neo-cons”, não estou de modo algum a favor de algum partidarismo. O que faço é apenas uma disntinção baseada em atributos bem reais. Assim, não é que eu goste de ser um “neo-con”. Mas – infelizmente, ou felizmente, não sei – eu sou um “neo-con”. Não que seu comentário diga alguma coisa nesse sentido. Só achei por bem dar um esclarecimento a mais. Como você disse, certo é todos sermos simplesmente Católicos Apostólicos Romanos.

      Quanto ao seu erro de avaliação do Papa Bento XVI, o arricado é fazer qualquer avaliação, pois a realidade é que infelizmente preciamos de mais informação do que temos acesso – nós, pobres mortais – para formarmos um juízo mais correto sobre a personalidade do Papa. Um exemplo desse nosso desconhecimento é a notícia – quase uma fofoca – que o Frei Egídio, a quem homenageio nessa postagem, me deu no próprio evento descrito nela, e que pode querer dizer que o Papa Bento XVI está muito mais próximo de um “Super-Papa” do que supõe sua decepção ou do que supõe um trecho tirado a esmo de um livro de entrevistas. Tudo o que chega para nós católicos aqui no Brasil chega filtrado e chega tarde.

      Pax et Salutis

  3. Bela exposição de sua “experiência” principalmente o que escreveu sobre o novo missal. Claro, sintético e conclusivo. Apenas gostaria de fazer um pequena correção. Não existe Nossa Senhora de Santana. Há sim Nossa Senhora Santana ou Santa Ana. A unica entre as santas que é chamada de Nossa Senhora por ser a mãe da Virgem Maria. Nossa Senhora de Santana, deu a entender que era uma devoção de Nossa Senhora que apareceu em Santana.

    • Caríssimo Francisco, Laudetur Dominus!

      Obrigado pelo seu elogio!

      A imagem, na verdade, é de Nossa Senhora menina junto com sua mãe, Santana (Santa Ana). O nome Nossa Senhora de Santana estava escrito em um jornal afixado num mural próximo ao altar e, por se tratar de uma imagem com Nossa Senhora retratada, pensei não haver nenhum problema com esse nome. Em qualquer caso, se for possível usar este nome, você tem razão: cabe a explicação de que Nossa Senhora está na imagem junto com sua mãe, pois dá a primeira impressão de que foi uma aparição da Virgem em Santana. Obrigado, também, pela correção.

      Pax et Salutis

  4. Rito Gregoriano (Missa Tridentina, Tradicional, pré-conciliar, etc.)

    Amigo, espero que a missa que você descreve acima seja como na igreja de São Bento- Rio De Janeiro, dizem que é em canto gregoriano.
    Confesso que vejo nos padres um distanciamento da palavra de Deus.
    Falam muito da novela…tal…do político …tal…Mas a pregação que tanto espero eu ainda não ouvi. Gostaria que você me repassasse o enderço, aonde tem esta missa para que eu possa assistir.
    Quanto o seu texto muito bom SHOW DE BOLA!!!

    • Caríssimo Iunes, Laudetur Dominus!

      A Missa do artigo não é no Mosteiro de São Bento. Mas é próximo. O endereço é:

      Igreja Nossa Senhora do Carmo (Antiga Sé)
      Endereço: Rua 1° de Março – Centro
      Horários de Missa: Domingos às 9:00h. Missa dia 1º de janeiro ao meio-dia.
      Responsável: Pe. Clauidiomar

      A Missa do Mosteiro não é “Gregoriana”, pois é celebrada no Rito Moderno. Muito bem celebrada, de maneira piedosa e de acordo com as rúbricas, mas ainda no Rito Moderno. Toda Missa bem celebrada tem canto gregoriano, seja no Rito Gregoriano, Seja no rito Moderno, pois o canto gregoriano é a música litúrgica por excelência. Falando francamente, as únicas músicas litúrgicas de verdade são o canto gregoriano e o canto polifônico erudito. O resto é apenas apropriação indébita do nome de “música litúrgica”.

      Pax et Salutis

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