O Papa e a camisinha aqui também!

Novo entrechoque entre os neo-cons (como eu) e os tradicionalistas. As palavras do papa, na entrevista que concedeu ao jornalista Peter Seewald, que deve ser publicada em um livro na próxima Quaresma, fizeram o que vários acontecimentos têm conseguido fazer: criaram um atrito entre as duas únicas correntes interessadas em defender a Santa Igreja de Deus dos ataques covardes de seus inimigos – que estão em toda parte, até mesmo dentro d’Ela! – e, é claro, com esse atrito, uma terrível perda de tempo no cumprimento dessa tarefa.

Eu não ia me envolver nessa questão. E, aliás, este texto não é nem mesmo para parte dos leitores habituais deste site: pessoas comuns que às vezes só conhecem este espaço como meio de saber o que realmente está acontecendo na Igreja e no mundo. Para estes leitores recomendo que leiam os seguintes textos, pois que eles esclarecem bem a questão:

O meu texto é na verdade para examinar o que se pode ver com o conjunto dos textos acima. É para os autores destes textos e de outros da blogosfera católica, caso alguns deles cheguem por acaso a ler estas humildes palavras.

A situação bizarra em que a Santa Igreja de Deus se encontra hoje – com autoridades confusas, despreparadas e totalmente ignorantes dos ensinamentos que deveriam defender – exige que, quando sai na mídia qualquer coisa relativa à Doutrina da Igreja ou à moral cristã, os autores dos apostolados católicos da Internet sejam obrigados a tomar uma posição: eles tentam suprir a lacuna deixada por bispos e teólogos que estão mais interessados em posar de grandes intelectuais ante os olhos da opinião pública, do que em cumprir os votos que fizeram ao escolherem seus caminhos como bispos ou teólogos.

A situação normalmente exige pressa nessa tomada de posição. A ironia disso tudo é que essa pressa também causa animosidades, principalmente entre neo-cons e tradicionalistas que, como eu disse, são as únicas correntes úteis e fiéis a Igreja hoje em dia.

Alguém aqui já viu o que acontece quando as peças de uma máquina (Sim, novamente a analogia da máquina!) não estão bem lubrificadas? Elas entram em atrito, geram calor, causam dano a si mesmas e ao resto da máquina, e o pior: reduzem ou anulam a eficiência da máquina. E sabem o que pode impedir uma boa lubrificação da máquina? Isso mesmo, seus espertinhos! A pressa em pôr as engrenagens para rodar: elas podem começar a girar sem que tenha dado tempo de o óleo chegar nas partes onde acontece o atrito.

Caríssimos, eu entendo a situação bizarra e dolorosa em que a Nossa Igreja – a única Igreja de Jesus Cristo – se encontra, e eu seria o último a sugerir que esquecêssemos nossas diferenças: as diferenças são boas quando bem mediadas e quando aqueles que estão errados têm a coragem e a humildade de reconhecer isto, mesmo que seja depois de muito tempo. Não se trata de esquecermos as diferenças, nem mesmo por um instante. Mas eu não vejo nos apostolados de um e de outro lado uma preocupação que me parece óbvia: a de coordenar as ações e declarações, de modo a evitar justamente aquilo que tentamos combater, que é o caos que causa desinformação. A preocupação de tomar imediatamente uma posição sempre vem primeiro.

É claro que o uso da camisinha é imoral! É claro que o papa não defendeu ipsis litteris a moralidade deste uso! É claro que pensar que usar a camisinha para evitar infectar outras pessoas se trata de um primeiro passo na moralização – em princípio! – é uma grande ilusão! Mas é claro que existem, mesmo que poucas, mesmo que só teóricas, exceções, pois a preocupação com o bem de outra pessoa é sim uma via pela qual a pessoa pode começar a entender os preceitos morais!

Imaginem como sairíamos na frente da imprensa mundana se antes de agitarmos nossos dedos, tornando públicas as posições que nos sentimos obrigados a assumir, tivéssemos dividido atribuições de modo a cada apostolado tratar da questão em seu próprio campo de especialidade, porém sem conflitos, pois algumas medidas já teriam sido negociadas de antemão para evitar os ruídos causados pelas diferenças de pensamento. Infelizmente só podemos imaginar como seria, pois apesar de esta me parecer uma estratégia extremamente óbvia, me parece que ao tomar conhecimento do problema, absolutamente ninguém propôs ou ao menos pensou nisto.

Não temos, de modo algum uma defesa coordenada e, por isso, coesa e firme da moral cristã. Temos, isso sim, preceitos morais e raciocínios jogados de maneira frenética na blogosfera católica. Não precisamos mais disto. Precisamos daquilo.

Normalmente eu não me preocupo com nada, mas hoje eu estou preocupado…

6 opiniões sobre “O Papa e a camisinha aqui também!

  1. Pela primeira vez nesse tempo de apostolado fugi da polêmica. Primeiro porque senti a decepção com o Santo Padre, é como se todo o trabalho que fiz nesse tempo fosse jogado por água abaixo, por esta declaração.

    Não fiz nem menção em meu blog, por medo de me precipitar, pois nunca as informações chegaram tão distorcidas, tão incompreensíveis.

    Mas, as palavras não foram apenas dúbias, foram desastrosas, não vou e nunca irei declarar que a Sé de Pedro esta vacante ou coisa parecida, mas nem JP II com suas ações muitas vezes escandalosas, casou algo tão danosos como Bento XVI fez.

    Nesse caso só me resta recolher-me, rezar e pensar como nunca nas profecias de Nossa Senhora em La Sallete.

    • Caríssimo Jefferson, Laudetur Dominus!

      Entendo sua dor. Mas, desculpe se faço um juízo errôneo, a impressão que eu tenho é a de que esta decepção que se espalhou pelos meios tradicionalistas é fruto de uma certa hipersensibilidade desenvolvida por eles. Eu compreendo que é muito difícil você continuar seu apostolado quando se espalha por aí que o papa está falando coisas que contrariam este mesmo apostolado. Mas eu peço que você reapare que esta nova polêmica só se instalou agora porque a mídia liberal quis. Imagina: você enfrenta diariamente protestantes, ateus, modernistas e até muçulmanos pra se render justamente diante de uma manobra da mídia liberal? Por causa de um triunfalismo idiota de pessoas a quem você não deve nada?

      Não vou continuar cogitando esta hipótese porque este não é o Jefferson Nóbrega. Já tivemos uma grande perda com o fechamento dos blogs da Teresa. Como amigo: não adicione o seu recolhimento às baixas que a apologética tradicional está tendo pouco a pouco. Mire-se no exemplo de Santa Teresa D´Ávila e continue caríssimo.

      Pax et Salutis

    • Pois é amigo Captare,se formos pensar dessa forma, as podrido~es da igreja terão que ser sempre jogada para baixo do tapete?…os leigos,que ja são desvalorizados,pois sabemos que a igreja é muito mais clerical do que lecal,vai viver um cristianismo de mentiras?…vc acha isso certo?

    • Prezado Rafael, Laudetur Dominus!

      Seja bem vindo ao Battle Site!

      Pois é, amigo Rafael, parece que você não leu meu texto com a atenção que eu achava que ele merecia. Lá pelo sétimo parágrafo – talvez você tenha lido, talvez não – você encontrará a seguinte sentença: “Caríssimos, eu entendo a situação bizarra e dolorosa em que a Nossa Igreja – a única Igreja de Jesus Cristo – se encontra, e eu seria o último a sugerir que esquecêssemos nossas diferenças: as diferenças são boas quando bem mediadas e quando aqueles que estão errados têm a coragem e a humildade de reconhecer isto, mesmo que seja depois de muito tempo. Não se trata de esquecermos as diferenças, nem mesmo por um instante.[…]”. Por isso, vou considerar essa bobagem de “jogar coisas para debaixo do tapete” apenas um lapso seu.

      E também não estou falando das “podridões” da Igreja (que expressão terrível!), seja lá o que você quis dizer com isso. Estou falando de diferenças no modo de pensar e encarar a crise de duas correntes que se esforçam sinceramente para defender a catolicidade. A não ser que você considere uma “podridão” alguém pensar diferente de você. Ou que as pessoas que pensam diferente de você só pensam “podridão”. Porque aí eu já não posso fazer mais nada a não ser recomendar um pouco de prudência e humildade.

      Os leigos não são desvalorizados. Isto é bobagem. Se a Igreja é muito mais clerical do que laical, o que há de errado nisso? Foi assim que Nosso Senhor a fundou, e isso está bem claro no testemunho evangélico da Santa Ceia, que é o evento fundante da Igreja por excelência. E este evento tem um caráter inegavelmente sacerdotal. Dizer que “a Igreja é muito clerical” é o mesmo que dizer que “um hospital é muito médico”. Ora, um hospital deve ser muito médico! Imagine um hospital sem médicos, que fosse tocado pelos doentes…

      É óbvio que eu não acho certo viver um cristianismo de mentiras. Mas, como você pode ver, isso não tem nada a ver com a minha postagem.

      Se ficou qualquer dúvida, ou qualquer coisa que você queira falar a mais não se acanhe em falar.

      Pax et Salutis

  2. A posição do Papa é perfeitamente tradicional e moral. É um principio da moral que, quando alguém está decidido a cometer um pecado mortal, pode-se lhe aconselhar de cometer um pecado menos grave. É o caso do prostituto aidético. Ele não tem direito de se prostituir e peca ao fazê-lo. Ele mão tem direito de contaminar outras pessoas com o vírus HIV. São dois effeitos de um mesmo ato perverso. Pode-se aconselhar, nesso caso, que a circunstância agravante seja eliminada. Como o preservativo não muda a natureza de pecado no caso do prostituto, pois seu ato é um dos mais graves no gênero da luxúria, usá-lo não aumenta a malícia, mas diminui. É por isso que o Papa não falou de uma prostituta, pois, neste caso, a natureza do ato muda e uma malícia maior é acrescentada: um ato segundo a natureza se torna contra a natureza (de fato, a fornicação simples é o pecado menos grave no gênero da luxúria).
    Para ilustrar com um caso análogo: se alguém está decidido a roubar, pode-se aconselhá-lo a não roubar um pobre aue precisa do dinheiro para viver, mas alguém que possua bens supérfluos. Em ambos os casos há um pecado, mas um é menos grave que o outro e o roubo não fica justificado por isso. Ou então, outro caso dentro do mesmo gênero: se alguém quer (sem que se consiga convencê-lo a não fazer isso) furtar um cálice consagrado, pode-se aconselhá-lo a cometer um outro furto de objeto não sagrado: isso retira a malícia do sacrilégio e torna o pecado menos grave. Será sempre pecado e o furto não se tornou permitido ou moral.
    A diferença com o caso do preservativo é que, em certas circunstâncias, o homem contaminado com o vírus e que decide manter relações contra a natureza, pode ter a obrigação de usar o preservativo. O que é certo é que ele não tem direito de acrescentar uma circunstância agravante a um ato que já é gravíssimo.

    • Caríssimo Felipe, Laudetur Dominus!

      Seja bem vindo ao Battle Site!

      Você diz que é um princípio da moral. Então deve estar indicado em algum manual de Teologia Moral. Você saberia indicar qual manual? Seria de grande ajuda, apesar de esta postagem não ter a intenção de servir como mais um meio para esse debate, tudo que possa ajudar a a dar mais conhecimento aos católicos sobre este assunto é perfeitamente bem-vindo.

      Pax et Salutis

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s