Sobre o Cristianismo e o Mitraísmo

O leitor Francisco Silva Castro postou na página O Reino dos Céus a seguinte consideração:

Muitas semelhanças encontramos entre o Mitraísmo ou culto a Mitra, que havia na roma pagã, e o Cristianismo. Mitra é apresentado como tendo nascido de uma virgem em uma gruta e visitado por pastores. Teriam os cristãos sido influenciados pelo culto a mitra e atribuído a Jesus o que era dito dele? Explicações tradicionalistas procuram entender estas semelhanças como artifícios do demônio para confundir os cristãos. Mas como o culto a Mitra é anterior o cristianismo, neste caso seria este a plagiar o de Mitra e não o contrário. Ora Deus, não imitaria o demônio em nada. Entendo que Deus ao criar o ser humano deixou inscrito em seu inconsciente a necessidade de redenção e o desejo de ser redimido. Por isto este aspecto está presente em todas as religiões. Sacrifícios e consciência de impotência de salvar-se por si mesmo. Marcados pelo pecado, os homens deturparam esta ânsia de sua própria natureza divinizando animais e os astros. Mas o que era Eterno perante Deus, a salvação pela encarnação do Verbo, foi vislumbrado imperfeitamente pelos homens. Só em Jesus os mitos se tornaram históricos e fatos. Então o que no Mitraísmo era apenas expressão mitológica, em Cristo se fez realidade. O demônio só pode deteriorar o que conhece posteriormente. Neste caso o muçulmanismo seria uma verdadeira deturpação do judaísmo e do cristianismo para desviar pessoas de Cristo. E nesta categoria entram todas as crenças e religiões que se apresentam como novas revelações em substituição ao cristianismo.

O comentário do Francisco é pertinente por duas razões que explicarei nesta postagem.

A primeira razão é que este comentário me dá ocasião de estrear a seção Explicando o Cristianismo, que será a seção de apologética – ou mais propriamente de Teologia Fundamental – do Battle Site. Nela eu vou tratar das polêmicas envolvendo a Verdade Cristã e o melhor modo de resolvê-las.

A segunda razão é que a solução proposta pelo Francisco para as supostas semelhanças entre Cristianismo e Mitraísmo é algo que faz muito sentido, inclusive teologicamente. Apesar do que um ou outro possam pensar, a idéia de que “existem elementos verdadeiros em outras religiões” não é uma novidade do Concílio Vaticano II. Esta idéia já se encontrava exposta na obra de São Justino, um dos Pais da Igreja que viveu lááá no século II. Em São Justino, estes elementos são chamados de “sementes do Logos”. Mas no caso do Mitraísmo, talvez não seja preciso recorrermos à idéia das sementes do Logos por causa das seguintes razões:

  • As fontes de informações mais significativas de que dispomos sobre o Mitraísmo, são de uma época em que ele já era quase uma coisa do passado. Ao contrário de todo o material de que dispomos sobre a Religião Cristã.
  • O que vemos mesmo assim neste material é que o Mitraísmo, assim como a maioria das religiões pagãs, era altamente sincrética, e que já na época do suposto contato com o cristianismo ela já contava com elementos da religião Hindu, Persa, Caldéia e Frigia. O Cristianismo, ao contrário, sempre teve grande aversão a qualquer tipo de sincretismo como bem o atestam a Bíblia Sagrada e a Tradição Católica, especialmente a obra dos Padres Apologistas que fazem parte da Tradição Constitutiva da Igreja (isto é, foram escritas enquanto a Tradição estava sendo formada). A escassez de material sobre o Mitraísmo não nos permite precisar quais elementos já estavam presentes de sua mitologia quando do contato com o Cristianismo, e a atitude típica dos cristãos torna mais fácil que tenha sido o próprio Mitraísmo a ter incorporado elementos da Religião do Cristo do que o contrário.
  • Mesmo sobre alguns elementos a que se atribui uma suposta semelhança entre o Cristianismo e o Mitraísmo não se tem certeza, como o fato de Mitra ter nascido de uma virgem.

De qualquer modo eu não sou historiador. Para me ajudar na minha tarefa recorri a uma enciclopédia e à ajuda do Luiz Fernando (do blog Lúdico Medieval) que é estudante de história e, apesar de não ter estudado especificamente o assunto, me ajudou com dicas metodológicas preciosas como:

“(1)É preciso que o cristianismo necessariamente tenha entrado em contato com a outra religião no séc. I d.C. e não depois de se universalizar.”

“(2) É preciso que exista uma comparação do ensinamento cristão antes e depois de ter entrado em contato com alguma religião não-cristã, para tentar encontrar alguma mudança, e isso é algo que, sinceramente, é dificílimo de demonstrar.”

“(5) A inteligência humana, embora obscurecida pelo pecado original, é capaz de compreender muitas verdades – segundo a visão cristã. Assim, praticamente todas as religiões tiveram alguma noção de sacrifício, e. g., os astecas. No entanto, ninguém que pense seria capaz de estabelecer uma analogia entre o rito asteca e o rito católico da Missa, dizendo que o último teria sido inspirado no primeiro, por razões evidentes, dentre elas a de que as religiões se desenvolveram em continentes diferentes. Por isso é preciso sempre verificar o grau de honestidade do indivíduo que tenta lançar tais suposições.”

Notem que este último item, inclusive, tem muito a ver com a tese do próprio Francisco, sendo algo de domínio racional geral.

Concluindo: Sim, existem princípios universais que estão inscritos no espírito de todos os homens e dos quais todas as correntes espirituais – entre elas o Mitraísmo e o Cristianismo – se valem para formular suas doutrinas. Mas no caso específico destas duas, a questão é um pouco mais complexa e assume contornos retóricos se aproveitando da ignorância da própria Academia (e, claro, da sua incapacidade de compreender algumas coisas próprias da religião) sobre o Mitraísmo. A religião Cristã pode ter inculturado alguns elementos até mesmo do mundo pagão (como a própria filosofia), mas esses elementos nunca seriam incorporados se viessem a alterar a essência mesma da Doutrina e do Culto cristão. Só isso já basta para que a possibilidade de um “plágio cristão” seja quase nula.

Espero que meu humilde artigo tenha ajudado. Qualquer dúvida ou comentário é só falar.

6 opiniões sobre “Sobre o Cristianismo e o Mitraísmo

    • Caríssimo Francisco, Laudetur Dominus!

      Não há de quê! Eu é que devo agradecer a oportunidade de comentar sobre este tema que é tão importante e que desperta muitas dúvidas em muita gente.

      Parabéns pelo seu empenho em estudar e refletir. E lembre-se: qualquer comentário ou dúvida, é só postar!

      Pax et Salutis

  1. Pingback: Imortalidade da alma e ressurreição dos mortos – Parte I « Deus o quer!!! – Captare's Battle Site

  2. Veja o que achei na Primeira apologia de São Justino, Filósof e Mártir: ” Teologia da Eucaristia – Este alimento se chama entre nós Eucaristia, da qual ninguém pode participar, a não ser que creia serem verdadeiros nossos ensinamentos e se lavou no banho que traza a remissão dos pecados e a regeneração e vive conforme Cristo ensinou. De fato, não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, Nosso Salvador feito Carne por força do Verbo de Deus, teve carne e Sangue por nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da Oração ao Verbo que procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de Graças – alimento com o qual, por tranformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne- é a Carne e o Sangue daquele mesmo Jesus encarnado. Foi isso que os apóstolos nas memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi mandado a eles, quando Jesus tomando o Pão e dando Graças disse: “fazei isto em memória de mim! isto é o meu Corpo!” e igualmente tomando o cálice, dando graças disse: “isto éo meu Sangue!” e só participou isso a eles. É certo que isso também, por arremedo, foi ensinado pelos perversos para ser feito nos mistérios da Mitra, com efeito, nos ritos de um novo iniciado, apresenta-se pão e uma vasilha de água com certas orações, como sabeis ou podeis informar-vos” São Justino, filósofo e Mártir. Coleção Patrística, ed. Paulus – pp.82 -83

    • Caríssimo Diogo, Viva Cristo Rei!

      Este trecho é interessantíssimo. Mostra que já no séc. II os cristãos já tinham ciência de certa semelhança entre estes aspectos rituais. E mostra que pelo menos São Justino, escritor de grande importância para a Doutrina Crista, atribuía isto à assimilação feita pelos Mitraístas (que seria um “arremedo” da Eucaristia Cristã).

      Obrigado pela citação!
      Pax et Bonvm

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