Entrevista com um jovem da FSSPX

No último dia 6 de Dezembro foi publicada no blog do Apostolado Shemá, uma entrevista com o jovem Luciano Beckman, que faz parte do Movimento Juventude Católica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Para quem está chegando agora no planeta Terra, a FSSPX é uma fraternidade fundada pelo bispo Dom Marcel Lefebvre com o objetivo de formar sacerdotes segundo o modelo “antigo”, isto é com as normas e práticas anteriores às reformas e alterações que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Dom Lefebvre em certa ocasião sagrou quatro bispos sem o mandato papal, pois estava avançado em idade e precisava de pessoas que dessem prosseguimento à sua obra. Devido a isto, ele, Dom Antônio Castro Mayer(bispo de Campos, aqui no Estado do Rio, que ordenou os bispos junto com Dom Lefebvre) e os quatro bispos ordenados por ele foram excomungados. Recentemente o papa Bento XVI levantou as excomunhões e atendeu o pedido da Fraternidade por uma debate teológico afim de discutir as alterações pós-conciliares.

Feitas as apresentações, devo dizer que considero o modelo de juventude da FSSPX muito superior à Pastoral da Juventude nacional, ou a qualquer movimento que lide com jovens no Brasil. Porém, há certos pontos na entrevista que eu gostaria de comentar pois, talvez por ser uma conversa informal por MSN ou devido ao poco tempo que os interlocutores tiveram para conversar, alguns pontos me pareceram meio turbulentos. Vamos a eles:

Apostolado Shemá: A juventude FSSPX possui algum líder nacional?
Luciano Beckman: Líder? Acha que somos da teologia de Genésio Boff e o comunista betto? De forma alguma. Temos um mentor que é Dom Marcel Lefebvre. Agora, na pessoa de Dom Lefebvre, temos Dom Fellay, Superior Geral da FSSPX.

É verdade que o modo de falar denuncia o modo de pensar, e que podemos identificar ideologias e erros de pensamento ou de percepção da realidade apenas observando os termos escolhidos por uma pessoa. Mas nós devemos tomar cuidado para não superestimarmos esta possibilidade, a ponto de fazer uma ligação tão direta entre termo e idéia que até mesmo palavras que expressem idéias bem gerais sejam tomadas como indício de comprometimento com um modo de pensar específico.

Neste caso, me parece que a cisma do Luciano com a palavra “líder” é um pouco exagerada. Ela acaba dando a propriedade de um termo muito geral, no caso a palavra “líder”, ao pessoal marxista que se diz cristão. É uma limitação desnecessária de um termo que pode ser perfeitamente usado por qualquer um, até mesmo pela Juventude Lefebvriana.

Apostolado Shemá: Mas, há possibilidade da FSSPX acatar o Concílio, como fez D. Rifan?
Luciano Beckman: A FSSPX não aceitará o Concílio Jamais! Este foi o qual o motivo de Dom Lefebvre ter fundado a Fraternidade. Aceita-se o Concílio, acaba a fraternidade e traímos o Cristo Crucificado. Isso é inadmissível! Pregamos totalmente o contrário. Seria utopia esperar isso de nós!

Tanto a pergunta como a resposta são colocadas de maneira equivocada. Não há a possibilidade de aceitar ou recusar o Concílio pois ele foi um fato histórico. Seria a mesma coisa que alguém querer aceitar ou recusar a Revolução Francesa: ela já aconteceu, não há como aceitar ou recusar.

O que pode ser aceitado ou recusado são as resoluções do Concílio: seus documentos, as idéias que passaram a ser ensinadas depois dele, a reforma litúrgica, as ações pastorais tomadas a partir dos documentos, etc. Quanto a isso, a FSSPX em si está tomando o rumo certo: ela não aceita e está tentando mostrar a Roma o que há de errado nestas coisas, através do debate teológico franco.

Luciano Beckman: “Roma está em Apostasia! Claro…claro…claro!” (Dom Marcel Lefebvre)
Não está vacante…está em Apostasia…ou seja, desviada da Verdade

Esta é a parte mais grave da entrevista e, por isso, deve ser examinada com cuidado. Primeiro, a palavra “Roma” dentro da Igreja na maioria das vezes tem a acepção do conjunto das autoridades romanas, o que compreende as Sagradas Congregações, comissões e tribunais que lá existem. Em menor número de casos, “Roma” se refere ao papa mesmo. Me parece que Dom Lefebvre, ao dizer o que está citado acima, tinha em mente a primeira acepção, pois o Concílio e principalmente o que se seguiu a ele não foram de iniciativa do papa sozinho. Mas quando o Luciano tenta explicar o que Dom Lefebvre disse, ele pula para a segunda acepção, pois apenas a sé, a cátedra de São Pedro, pode ficar vacante, não Roma inteira! Neste sentido a explicação do Luciano pode se tornar perigosa e mais confunde do que explica, pois juridicamente a apostasia é passível de sanções, a principal delas a perda do poder espiritual e da jurisdição. Dizer que o papa está em apostasia significa – juridicamente – dizer que ele não é mais papa.

Apostolado Shemá: Faça uma listagem simples sobre os pontos que a FSSPX afirma serem heréticos, encontrados no período pós-conciliar
Luciano Beckman: Heresia seria qualquer erro que se propague como sendo Verdade.

Não é. Existem algumas condições a serem preenchidas para que haja heresia. Não é qualquer erro, e sim aquele que é frontalmente contrário a alguma verdade contida no Depósito da Fé, mesmo que seja uma dúvida. E a afirmação ou a dúvida deve persistir após a advertência da autoridade competente. Além disso, é necessário ser cristão para se tornar herege. Muçulmanos não podem ser hereges. Eles são infiéis.

Depois de ele dar essa definição errada, porém, ele não a usa. Ele usa, para denominar os erros pós conciliares a palavra correta: abusos.

Luciano Beckman: A nova liturgia se comparada a liturgia de Lutero é impressionantemente idêntica!

A citação de uma fonte, um estudo que seja, feito por alguma autoridade da FSSPX ratificando esta afirmação daria credibilidade a ela. Do jeito que está, parece uma afirmação gratuita.

Luciano Beckman: A participação dos 4 pastores protestantes no sínodo dos Bispos na abertura até o fim do Concílio. Agora me diz, era do interesse deles os assuntos católicos?

Independente do interesse que eles tivessem para participar, não haveria nada de errado contanto que eles fossem simples observadores. Para considerar que houve algo errado é necessário considerar também que eles interferiram de alguma forma.

Luciano Beckman: O Ecumenismo que arrefece a fé e destrói a veracidade da verdade de fé propagada por São Pio X onde não há Salvação fora da Igreja Católica. O diálogo entre religiões cristã que nunca houve e que de fato é uma farsa!

Bom, diálogo entre religiões há. Tanto que está em andamento o acordo com os Anglicanos. Pode ser que ele não esteja acontecendo do modo como a FSSPX considera correto. Mas, para isso a Fraternidade está entrando em debate com Roma, para resolver estas coisas que ela considera erradas.

Quanto ao ecumenismo, os tradicionalistas costumam fazer com esta palavra uma generalização parecida com a que foi feita com a palavra “líder” lá em cima. Falar em ecumenismo como se fosse um fenômeno bem definido só serve como ferramenta ideológica, tanto a favor dos progressistas quanto a favor dos tradicionalistas mais radicais. Para tratar a questão do ecumenismo com a seriedade devida a ela é necessário distinguir o movimento ecumênico (que é anterior ao CVII), os seus idealizadores (pois muita coisa no movimento se deu diferente daquilo que foi idealizado a princípio), o diálogo inter-religioso (que seria um dos meios para o ecumenismo), as diversas visões do ecumenismo em si e as ações tomadas em nome de cada uma dessas visões.

Pode ser que depois de tudo isso ser considerado, de todas as divergências serem resolvidas, e de todos os erros serem estirpados, o ecumenismo ainda ser algo condenável. Mas estamos ainda muito longe de poder condená-lo definitivamente.

Luciano Beckman: E como já tinha dito sobre a liturgia, a participação dos leigos pondo-se semelhante ao sacerdote e concelebrando na missa e repetindo as palavras que só o padre “In persona Cristi” poderia fazer.

Quanto a isso eu concordo em gênero, número e grau. A laicização da liturgia e de algumas outras atividades eclesiais é uma coisa nefasta! Não há nada de positivo nisso.

Vocês podem conferir toda a entrevista no link lá em cima. Eu pedi para o Júnior Pereira, autor da entrevista, avisar ao Luciano sobre estes comentários, e eles estão sendo feitos com a autorização dele. Em breve voltem a ler esta postagem, pois o Luciano deve vir ele mesmo comentar aqui. No debate franco e racional nós podemos chegar ao conhecimento da verdade.

4 opiniões sobre “Entrevista com um jovem da FSSPX

    • Caríssimo Luiz, Laudetur Dominus!

      Apesar de você não ter muito o que dizer, o texto que você indicou vale como um comentário bem elaborado. Ele é indispensável mesmo!

      Aliás ele pode ficar como recomendação a todos os que lerem esta postagem a partir de agora.

      Sobre o texto em si devo dizer que, a despeito da posição geral da Associação Permanencia, o texto mostram mais aquilo que eu tenho tentando mostrar onde eu comento sobre esse assunto: que o Vaticano II não é causa da crise. Ele apenas foi um sintoma. Concedo que ele pode ter sido até mesmo um catalisador, mas isto não faz dele necessário para que a crise se instalasse.

      Pax et Salutis

  1. É uma característica marcante nos jovens defender árduamente aquilo em que acreditam, seja certo ou não!

    É aquele velho tudo ou nada!

    Eu por exemplo enquanto ateu e marxista era um militante incontestável, defendia com unha e dentes essa minha “crença”, não perdia um protesto, um enfrentamento, e ao me converter não foi diferente, primeiro como um árduo neoconservador depois com mais estudo, um ultratadicionalista ferrenho beirando o sedevacantismo com o qual tive alguns “flertes”.

    Mas, hoje com a maturidade vejo que em grande parte agi pela impulsão sem o devido raciocíno, muitas vezes apenas repetindo o que os outros diziam sem ao menos pensar se era verdade.

    E vejo isso na entrevista desse jovem! Percebe-se o amor dele pela Igreja e pela tradição, característica que dificilemente acharíamos em um movimento de jovens moderno, no entanto, em algumas respostas ele apenas fala movido por esse amor, mas sem raciocinar a fundo.

    Mas, nada que a maturidade e o estudo não resolvam.

    Pax et bonvs.

  2. Caro Captare, Salve Maria!

    Seus comentários sobre a entrevista são muito relevantes. Creio que o horário (madrugada) e a falta de organização das perguntas ( não havia nenhuma programação para isto) deixaram alguns pontos não muito esclarecidos, ou até mesmo colocados de forma errônea, tanto nas respostas, quanto nas perguntas. Mas, para conseguir uma posição bem definida, estou com uma entrevista marcada com o prior do priorado da FSSPX aqui de SP, onde irei obter respostas sobre todos pontos possíveis.

    Quando postar a entrevista no blog, aguardo seus comentários.

    Paz e Bem!

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