É possível um mundo sem violência???

Por estes dias, tem sido exibida na TV uma convocação para a Marcha Mundial Pela Paz e Pela Não-Violência. No anúncio, vários artistas, alguns bem carismáticos, outros nem tanto assim, convocam o telespectador a participar. Mensagens bonitinhas e simpáticas. Não despertaria nenhuma objeção especial minha não fosse por um fato: a marcha usa como argumento uma mentira flagrante, que é dita claramente no anúncio – a de que é possível um mundo sem violência.

Não sou pacifista. Os que me conhecem bem sabem que nunca fui. A violência não me assusta, apesar de eu já ter sido vítima dela algumas vezes. Já apanhei durante um assalto e já me envolvi em briga de rua que começou por motivo bobo. E já corri de tiroteio. E eu não me assusto com ela, porque meu bom senso me diz que de vez em quando eu vou sofrer com ela, e que antecipar este sofrimento com o medo é uma estupidez. Não tenho nada contra quem faz militância contra a violência porque acredita que conflitos podem ser resolvidos apenas com o diálogo. Tentar diminuir a violência, tentar incutir uma “cultura de não-violência” chega a ser uma causa nobre às vezes. O que não pode é contar mentira, iludir o povo, para que este objetivo seja alcançado!

Um mundo sem violência não é possível. Simplesmente não é. E não é, porque sempre existirão pessoas autoritárias e egocêntricas. E, eventualmente, algumas delas conseguirão adquirir certo poder sobre outras pessoas. Não há diálogo com estas pessoas! Elas têm que ser combatidas! Pois o autoritarismo não admite diálogo, principalmente quando ele está combinado com o egocentrismo. Não há negociação com o terrorismo, como não há negociação com o revolucionário que está convencido de que está “fazendo a história acontecer como deve acontecer”. Você tentaria negociar com o crime organizado, tentando convencer um traficante de drogas de que o que ele faz é errado? Pessoas assim acreditam que mesmo quando fazem coisas consideradas erradas, como mentir, estão fazendo algo de bom, pois seu referencial ético é o compromisso com a causa. Quando você tenta convencê-los de que o que fazem é errado, é você que está cometendo o “supremo pecado” de tentar tirar sua lealdade pela “causa”. E quando eles mentem, fingindo que concordam com algum ponto posto por um pacifista, está apenas fazendo o que é necessário pela “causa”. Seja essa causa a utopia, ou simplesmente o lucro pelo tráfico.

É por isso que toda sociedade deve ter uma polícia e um exército, e estas forças não podem ser substituídas por embaixadores e diplomatas. Contra os autoritários internos, polícia. Contra os autoritários externos, exército. É a violência injusta, dos bandidos e dos tiranos, que deve acabar, e ela não acaba com negociações. Contra eles, é justo certa dose de violência. É justo tirar a liberdade de um bandido. É justo arrancar o poder das mãos de um governante que quer impor sua vontade ao povo. Logo existe uma violência que é justa e necessária.

As pessoas mais sentimentais tendem a acreditar que todos os conflitos podem ser resolvidos pelo diálogo. Ninguém deve desistir de seus sonhos. Mas o que ninguém pode fazer é abdicar do bom senso. Um pacifista pode até abdicar de seus direitos básicos, como sua liberdade pessoal, liberdade de expressão, e até mesmo sua integridade e sua vida, a fim de evitar um conflito que pode descambar para a violência. Mas não pode iludir outras pessoas para que façam o mesmo. Não podem repetir um slogan mentiroso. Se querem ignorar um dado da realidade, o de que infelizmente a violência às vezes é necessária, têm a liberdade para fazê-lo. Mas tentar esconder a realidade de outras pessoas, aí já é demais.

Eu apoiarei qualquer marcha pela paz, passeata, show de circo ou o que quer que seja, no dia em que convencerem o Fernandinho Beira-Mar, as FARC, o Hugo Chávez, o Fidel Castro e o Ahmadinejad a participar dos mesmos eventos. E claro, eles também têm que desistir de seu autoritarismo. Até lá, a única coisa que eu apoiarei, para eles é no mínimo a cadeia. No mínimo. E ainda vai ser justo.

6 opiniões sobre “É possível um mundo sem violência???

  1. Post interessante, concordo com o que escreveste! A paz, segundo a bela definição de Santo Agostinho, é precisamente a tranquilidade na ordem. Mesmo porque a Paz é o efeito da justiça.

    O que Deus diria destes que “tratam com negligência as feridas do meu povo, e exclamam: Tudo vai bem! Tudo vai bem!, quando tudo vai mal.” (Jer. 6, 14)?

    • Caríssimo Luiz, Laudetur Dominus!

      E cá pra nós: estar de acordo com o autor do “Civitas Dei” num assunto tão sério quanto esse não é pouca coisa.

      Se o pessoal da Marcha Mundial lesse Sto. Agostinho, talvewz eles não fossem tão iludidos assim.

      Pax et Salutis

    • Prezado Captare,

      Sim, estar de acordo com Santo Agostinho é por si, sinal de inteligência e bom senso! ;D

      Quanto as leituras… eu acho que esse pessoal está ocupado lendo Foucault, Derrida, Deleuze, Hubermann, Nietzsche e congêneres, rs.

    • Olá, Diogo (Captare).
      Obrigado pelas saudações, achei muito interessante o Battle Site! Li alguns poucos artigos hoje e gostei muito, mas aviso desde já que nossas maneiras de pensar são um pouquinho diferentes… e eu gosto de manter contato com pessoas que pensam diferentes (desde que sejam honestas e coerentes, claro). E já estou te seguindo no Twitter.

      Um abraço!

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