Música de Deus?

“Faz um milagre em mim”, é um fenômeno pop. “Faz um milagre em mim” é só isso: um fenômeno pop. A prova de que é um fenômeno pop é a quantidade de versões em vários ritmos que foram feitas em cima dela, a frase “o show mais esperado do ano” em um cartaz do Regis Danese e a quantidade de pessoas não-religiosas que cantarolam ela por causa de sua melodia e sem a mínima vontade de se converter. A prova de que é apenas um fenômeno pop é sua letra, que menciona Deus de leve, mas faz muitas referências à condição do homem e sua necessidade de ter atenção.

Os Brasileiros têm um vício terrível: aproveitar o que já virou lixo lá fora. Os católicos adquiriram um vício terrível nas últimas décadas: em respeito (humano) às opiniões dos protestantes, usam suas músicas como se fossem “músicas de Deus” sem prestar atenção direito nas suas letras; basta que sejam bonitinhas, que “toquem o coração” e falem um pouquinho de Deus. Os brasileiros católicos acumularam os dois vícios: há muitos católicos que se derretem ao ouvir “Faz um milagre em mim”, um dos maiores sinais da decadência da religiosidade do homem contemporâneo, e podem até discutir com aqueles que apenas falam a verdade, dizendo que esta não é uma música cristã.

A verdade está lá, escondidinha, já no começo da letra:

Como Zaqueu eu quero subir,
O mais alto que eu puder.

Só pra te ver, olhar para Ti,
E chamar sua atenção para mim […]

Porém, na Bíblia Sagrada, em nenhuma parte está dito que Zaqueu quis chamar a atenção do Senhor. Confiram a passagem abaixo:

E eis que havia ali um varão chamado Zaqueu; e era este um chefe dos publicanos, e era rico.
E procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura.
E correndo adiante, subiu numa figueira brava para o ver; porque haveria de passar por ali.
E, quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque convém pousar em tua casa.

A passagem – Lc 19, 2-5 –  é da Tradução “Almeida Revisada e Corrigida” publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, ou seja, uma Bíblia protestante. As Bíblias católicas também não mencionam a intenção de chamar a atenção do Senhor. Então, por que será que alguém quereria “como Zaqueu” chamar a atenção do Senhor? A resposta é a decadência da religiosidade já mencionada.

Com a abertura da mentalidade cristã para a filosofia moderna, iniciada no séc. XVIII pelo protestante Schleiemarcher, o homem e toda sua mesquinhez passaram a ter importância dentro da religiosidade. O homem se pôs no centro, tirando Deus de lá, onde era o lugar d’Ele. Não mais a Vontade de Deus e sua Majestade, mas os anseios do homem, suas feridas e sua prosperidade passaram a ser a preocupação daqueles que falavam de Deus.

“Faz um milagre em mim” é uma compilação de todas estas demandas. O resto da canção só pode ser entendida nesse contexto da espiritualidade antropocêntrica e em função daquele quarto verso. Pois todos trechos que passam por máximas cristãs, podem ser reinterpretadas à luz de ideologias bem disseminadas no meio protestante, possíveis apenas devido à influência da mesma filosofia moderna. Senão vejamos:

  • “Sou pequeno demais” – Parece uma demonstração de humildade, o reconhecer que se é pequeno diante de Deus Altíssimo. Mas na prática, esta frase pressupõe a idéia do “Deus que combate em nosso lugar”, típica da teologia da prosperidade, que costuma confundir os “sonhos dos homens” com os “sonhos de Deus”, a “vitória de Deus” com a “prosperidade do homem”.
  • “Largo tudo pra te seguir” – Na prática se trata do formalismo puritano, que rejeita apenas palavras e termos mundanos, chegando a ter gente que ouve apenas música gospel, mas que adota as mesmas coisas disfarçadas, com novas palavras, como a necessidade de fazer uma música como essa com um ritmo popular, os “bailes gospel”, etc.
  • “Sara todas as feridas” – Ao contrário do Senhor, que curava feridas e enfermidades que simbolizavam as doenças da alma, esta frase fala das feridas emocionais, que pessoas que acham que espiritualidade é falar das dores dos homens, estão cheias.
  • “Me ensina a ter santidade” – Esta oração seria muito boa se correspondesse à realidade, pois todas as pessoas devem se esforçar para ser santas, mas a santidade da música é o conceito muito particular de santidade do protestantismo, que envolve apenas o fechamento da pessoa no mundo das ideologias e práticas protestantes, naquele puritanismo já mencionado.

Os católicos precisam entender que não se trata de rejeitar uma música só porque ela vem dos protestantes. A verdade é que nós devemos evitar estas músicas por causa dos motivos citados acima. Uma música bem feita mexe com os sentimentos das pessoas, e quando elas se dão conta dos erros que elas apóiam podem preferir dar vazão ao seu sentimento a exigir a clareza que deve haver em músicas religiosas, é a Fé que sai perdendo com isso tudo.

Não adianta pedir com os olhos marejados para o Senhor entrar na sua casa se, quando Ele quiser te mostrar a verdade, você preferir ouvir seus sentimentos.

Ele vai precisar realmente fazer um milagre em você para você ouví-Lo…

7 opiniões sobre “Música de Deus?

  1. Nota-se que nessa espécie de “corrida maluca” que os protestantes instituiram, como que uma gincana para ganhar o céu, o principal critério pontuador é a quantidade de (fiéis) seguidores.
    E o pior é que parecem felizes com a legião de cristãos MORNOS que “grudam superficialmente” na sua distorcida epiderme. Os citados não-religiosos que cantarolam a torto e a direito a melodia..

    Estão transformando os desavisados, trazendo para um prisma tecnológico, em verdadeiros “SPAMs de Jesus”.. olha que maravilha! (sic!)..
    Fosse essa estratégia de “marketing” válida (e essencialmente não é, a propósito.. palavra de Administrador de Servidores de E-mail), Nosso Senhor provavelmente não teria se preocupado em eleger 12 mais capacitados, mais próximos, para representar através da história e melhor levar à frente o anúncio do Reino.

    Nunca foi ou será mais válido e efetivo sobrepôr quantidade à qualidade..

  2. Olá, Captare!

    Excelente texto!
    Aliás, sempre rio com seus textos, rs. Nada como alguém sem cerimônias ao escrever.

    Observando esse fenômeno de religiosidade que prima pelo sentimento acima da razão, eu não posso deixar de lembrar-me dos Pietistas.

    Concordo que músicas como essa são nada mais que fenômenos pop, e a ligação que fez com seu comentário sobre o famoso ‘Largo tudo pra Te seguir’. Como você bem observou, em cima de eufemismos, se utilizam das mesmas coisas ditas mundanas ‘purificadas’ pela denominação ‘Gospel’; ‘Cristoteca’ é algo que ao menos para mim, parece incompreensível – não unicamente por ser uma balada, mas, por ser uma ‘balada para Deus'(?). Como diferenciar uma dança que é para Deus de uma que não é dentro de uma balada? Isso me parece impossível; se falam que a letra é diferente, isso não faz mudar o ritmo, e além disso não faz sentido se reunir num local repleto de adolescentes insaciáveis, com luzes dividindo o cenário com penumbras e som alto para dançar pra Deus. E não estou sendo ‘ultraconservadortradicionalpuritano’, estou apenas comentando este aparente paradoxo que acredito existir. Na verdade, quase tudo que é secular hoje, tem uma ‘versão Gospel’. Por mais que não goste de música eletrônica, procurei entender na prática o motivo sobre o porque ouvir ‘dance music católica’ em vez de outras, isto é, procurando saber se as letras realmente nos remetem a Deus, e etc. Contudo, isso não é verdade, é só procurar pelas tais músicas pra ver que a maioria do tempo é só ritmo, nada se diz naquela repetição irritante de batidas.

    Att! =D

  3. Di li hj tbm tenho uma certa rejeição a este louvor quando tocado na missa agora irei ler a letra com calma pedira Deus interpretaçã oe comentarei em breve… pq de primeira assim quando se escuta se ver um louvor bonito com vc disse mas precisamos de conhecimento e um pouco de interpretação propria para sugerirmos ou comentarmos algo nós sabemos que o compostior tem sua propria interpretação mais para fazer uma musica para Deus precisa-se de conhecimento sobre o que está falando!!!

  4. Caro Theophilus,

    Em pensar que até o protestantismo já nos deu algumas obras magníficas como por exemplo Bach.

    Mas, a consequência de não se ter um dogma imutável e drástica! Tudo parte para o relativismo, para a mudança, muda-se a doutrina, muda-se o pensamento e muda-se a música!

    Pax et bonvs!

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